quinta-feira, 5 de maio de 2011

Resumo do voto do Ministro Ayres Britto


Hoje é um dia histórico. Em 05 de maio de 2011 nos sentimos mais gente!

Parece bobeira pra muitxs, mas não poder ser reconhecidxs como família dói fundo. Quer dizer, doía! Porque, na votação do Supremo Tribunal Federal, o SIM à união estável entre pessoas do mesmo sexo já é maioria. Vitória!

O ministro Gilmar Mendes torturou nossos corações, foi questionado pelos colegas por suas interpretações e acabou votando a favor da igualdade de direitos.

Já ontem, o ministro relator Ayres Britto arrancou lágrimas de felicidade das pessoas que ouviam seu voto.

Quem se interessa pelo tema esteve atendo ontem e hoje, o facebook não conseguia atualizar tantas inserções de comentários, ficou lento, lento... Voltou ao normal quando obtivemos maioria, 6 X 0! No momento já estamos em 8 X 0 e como creio que ninguém vai ter "coragem" de votar contra, ganharemos por unanimidade.

Deixo aqui parte do voto do poético relator, que no original teve 49 páginas, com direito a citar a Constituição Federal, Jean-Paul Sartre, Friedrich Nietzsche, Carl Gustav Jung e (até) Chico Chavier.

Baixe o voto na íntegra AQUI.

Abaixo, o que eu não consegui excluir do "resumo".
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V O T O

O Senhor Ministro Ayres Britto (Relator):

(...)

Com o que este Plenário terá bem mais abrangentes possibilidades de, pela primeira vez no curso de sua longa história, apreciar o mérito dessa tão recorrente quanto intrinsecamente relevante controvérsia em torno da união estável entre pessoas do mesmo sexo, com todos os seus consectários jurídicos. Em suma, estamos a lidar com um tipo de dissenso judicial que reflete o fato histórico de que nada incomoda mais as pessoas do que a preferência sexual alheia, quando tal preferência já não corresponde ao padrão social da heterossexualidade. É a perene postura de reação conservadora aos que, nos insondáveis domínios do afeto, soltam por inteiro as amarras desse navio chamado coração.

(...)

É como dizer: se o corpo se divide em partes, tanto quanto a alma se divide em princípios, o Direito só tem uma coisa a fazer: tutelar a voluntária mescla de tais partes e princípios numa amorosa unidade. Que termina sendo a própria simbiose do corpo e da alma de pessoas que apenas desejam conciliar pelo modo mais solto e orgânico possível sua dualidade personativa em um sólido conjunto, experimentando aquela nirvânica aritmética amorosa que Jean-Paul Sartre sintetizou na fórmula de que: na matemática do amor, um mais um... é igual a um;

(...)

A Constituição Federal não faz a menor diferenciação entre a família formalmente constituída e aquela existente ao rés dos fatos. Como também não distingue entre a família que se forma por sujeitos heteroafetivos e a que se constitui por pessoas de inclinação homoafetiva. Por isso que, sem nenhuma ginástica mental ou alquimia interpretativa, dá para compreender que a nossa Magna Carta não emprestou ao substantivo “família” nenhum significado ortodoxo ou da própria técnica jurídica.

(...)

Assim interpretando por forma não reducionista o conceito de família, penso que este STF fará o que lhe compete: manter a Constituição na posse do seu fundamental atributo da coerência, pois o conceito contrário implicaria forçar o nosso Magno Texto a incorrer, ele mesmo, em discurso indisfarçavelmente preconceituoso ou homofóbico. Quando o certo − data vênia de opinião divergente - é extrair do sistema de comandos da Constituição os encadeados juízos que precedentemente verbalizamos, agora arrematados com a proposição de que a isonomia entre casais heteroafetivos e pares homoafetivos somente ganha plenitude de sentido se desembocar no igual direito subjetivo à formação de uma autonomizada família. Entendida esta, no âmbito das duas tipologias de sujeitos jurídicos, como um núcleo doméstico independente de qualquer outro e constituído, em regra, com as mesmas notas factuais da visibilidade, continuidade e durabilidade. Pena de se consagrar uma liberdade homoafetiva pela metade ou condenada a encontros tão ocasionais quanto clandestinos ou subterrâneos. Uma canhestra liberdade “mais ou menos”, para lembrar um poema alegadamente psicografado pelo tão prestigiado médium brasileiro Chico Xavier, hoje falecido, que, iniciando pelos versos de que “A gente pode morar numa casa mais ou menos,/Numa rua mais ou menos,/ Numa cidade mais ou menos”/ E até ter um governo mais ou menos”, assim conclui a sua lúcida mensagem: “O que a gente não pode mesmo,/ Nunca, de jeito nenhum,/ É amar mais ou menos,/ É sonhar mais ou menos,/ É ser amigo mais ou menos,/ (...) Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos”.

Passemos, então, a partir desse contexto normativo da família como base da sociedade e entidade credora da especial tutela do Estado.

(...)

Logo, que não se faça uso da letra da Constituição para matar o seu espírito, (...) Ou como diz Sérgio da Silva Mendes, que não se separe por um parágrafo (esse de nº 3) o que a vida uniu pelo afeto. Numa nova metáfora, não se pode fazer rolar a cabeça do artigo 226 no patíbulo do seu parágrafo terceiro; II.3. que a terminologia “entidade familiar” não significa algo diferente de “família”, pois não há hierarquia ou diferença de qualidade jurídica entre as duas formas de constituição de um novo núcleo doméstico. Estou a dizer: a expressão “entidade familiar” não foi usada para designar um tipo inferior de unidade doméstica, porque apenas a meio caminho da família que se forma pelo casamento civil. Não foi e não é isso, pois inexiste essa figura da sub-família, família de segunda classe ou família “mais ou menos” (relembrando o poema de Chico Xavier). O fraseado apenas foi usado como sinônimo perfeito de família, que é um organismo, um aparelho, uma entidade, embora sem personalidade jurídica. Logo, diferentemente do casamento ou da própria união estável, a família não se define como simples instituto ou figura de direito em sentido meramente objetivo. Essas duas objetivas figuras de direito que são o casamento civil e a união estável é que se distinguem mutuamente, mas o resultado a que chegam é idêntico: uma nova família, ou, se se prefere, Uma nova “entidade familiar”, seja a constituída por pares homoafetivos, seja a formada por casais heteroafetivos.

(...)

E nunca apareceu ninguém, nem certamente vai aparecer, para sustentar a tese de que “entidade autárquica” não é “autarquia”, nem “entidade federativa” é algo diferente de “Federação”. Por que entidade familiar não é família? E família por inteiro (não pela metade)?

Que as diferenças nodulares entre “união estável” e “casamento civil” já são antecipadas pela própria Constituição, como, por ilustração, a submissão da união estável à prova dessa estabilidade (que só pode ser um requisito de natureza temporal), exigência que não é feita para o casamento. Ou quando a Constituição cuida da forma de dissolução do casamento civil (divórcio), deixando de fazê-lo quanto à união estável (§6º do art. 226). Mas tanto numa quanto noutra modalidade de legítima constituição da família, nenhuma referência é feita à interdição, ou à possibilidade,de protagonização por pessoas do mesmo sexo. Desde que preenchidas, também por evidente, as condições legalmente impostas aos casais heteroafetivos. Inteligência que se robustece com a proposição de que não se proíbe nada a ninguém senão em face de um direito ou de proteção de um interesse de outrem.

E já vimos que a contraparte específica ou o focado contraponto jurídico dos sujeitos homoafetivos só podem ser os indivíduos heteroafetivos, e o fato é que a tais indivíduos não assiste o direito à não-equiparação jurídica com os primeiros. Visto que sua heteroafetividade em si não os torna superiores em nada. Não os beneficia com a titularidade exclusiva do direito à constituição de uma família. Aqui, o reino é da igualdade pura e simples, pois não se pode alegar que os heteroafetivos perdem se os homoafetivos ganham. E quanto à sociedade como um todo, sua estruturação é de se dar, já o dissemos, com fincas na fraternidade, no pluralismo e na proibição do preconceito, conforme os expressos dizeres do preâmbulo da nossa Constituição.

(...)

No mérito, julgo procedentes as duas ações em causa. Pelo que dou ao art. 1.723 do Código Civil interpretação conforme à Constituição para dele excluir qualquer significado que impeça o reconhecimento da união contínua, pública e duradoura entre pessoas do mesmo sexo como “entidade familiar”, entendida esta como sinônimo perfeito de “família”. Reconhecimento que é de ser feito segundo as mesmas regras e com as mesmas conseqüências da união estável heteroafetiva. É como voto.

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Fonte da imagem: roubo do perfil de Alexandra Peixoto no Facebook.

domingo, 1 de maio de 2011

Homofobia e Solidariedade

Dia 28 de abril, recebi uma nota que dizia "Subsede Vale do Paraíba e Litoral Norte reitera seu posicionamento contra a homofobia". No texto dizia que um dos colaboradores do Conselho Regional de Psicologia- SP foi vítima de homofobia, e que a citada Subsede se unia ao coro dos banhistas de Ubatuba a favor da diversidade e “liberdade de ser” de tod@s.

Chateada com o ocorrido, mas satisfeita com a nota, procurei o colega Vinícius para saber um pouco mais. Queria saber se ele estava bem e se tinha publicado em algum lugar o ocorrido. Se, por assim dizer, tinha colocado a boca no trombone virtual.

Como ele não tem esse costume, coloquei esse espaço à disposição e ele topou a idéia. Simplesmente não nos conformamos que pessoas sejam constrangidas e violentadas apenas por frequentar a praia, aproveitar o feriado de Páscoa, exercer o seu direito de ir e vir...

Felizmente ele acredita que "a humanidade ainda tem jeito". Lendo seu relato, também tendo a acreditar.
A Vinícius, minha solidariedade.
A vocês, os acontecimentos:

DESABAFO (Vinícius Samuel)

Neste ultimo sábado, dia 22 de abril – véspera de páscoa – fui para Ubatuba com meus amigos, mais precisamente para a praia da Itamambuca. Esta viajem, ao meu ver, foi no mínimo inusitada, para não dizer enriquecedora.

Ao chegarmos na praia, estendemos quatro cangas no chão, acomodamos nossos pertences e quando estávamos acomodados fui olhar uma barraquinha de praia que tinhas algumas coisas as quais me atraíram.

Ao retornar para o local onde estávamos acomodados, vi meu amigo Amauri se levantando da areia e um senhor berrando com os meus amigos. Sem entender, cheguei impondo limites e perguntando o que estava acontecendo ali. O senhor que ali estava – alterado – me respondeu aos berros que meus amigos estavam passando protetor solar, e que isso era coisa de “boiola”, “Bicha”.

Para evitar maiores absurdos, pedi para o senhor para que se acalmasse, disse que não precisaria se exaltar, quando então ele pegou um remo que estava próximo e ameaçou agredir a todos. Absurdado com o que estava presenciando disse a ele que estava chamando a polícia, e que não teria motivo algum para cometer tal barbárie.

Então, após ter ligado para a policia, fiquei no local esperando o policial chegar. Neste meio tempo o senhor exaltado ofendia a nós todos, dizia absurdos e nos jogava latas amassadas de cerveja. Em um certo momento tive receio de ficar esperando ali, ele veio e chutou nossa garrafa de água mineral!

Com uma hora de espera o Apoio da Praia – que faz a segurança do residencial Itamambuca – chegou, me apresentei ao Apoio e disse o que estava acontecendo. O Apoio chamou o senhor de canto, conversou com ele, disse que todos ali tinham o mesmo direto, e que ninguém iria agredir ninguém, porém, eles não poderiam ficar ali para resguardar a segurança de ninguém, teriam de partir para continuar a ronda na praia. Nem bem ficaram quinze minutos, e já partiram.

Ao se ver novamente sem uma censura de seu comportamento agressivo, o senhor exaltado retornou ao seu comportamento ofensivo, que nestas alturas já incomodava não apenas a nós, mas quem ali estava com seus familiares e amigos.

Cansados com que estava acontecendo, e já desesperançosos com a vinda de alguma polícia, após UMA HORA E MEIA de espera por uma polícia que não chegava, resolvemos sair de onde estávamos para não acabarmos sendo agredidos pelo senhor exaltado. Tão logo retiramos a primeira canga do chão, eis que como num passe de mágica uma intervenção quase que divina vem ao nosso socorro, a população da praia, já cansada de todo stress gerado pelo papelão que o senhor causara se manifestou nos dizendo que dali nós não sairíamos. Neste momento senti em meu coração um alivio imenso, como se uma grande pressão que atormentava sumisse. Me senti aceito do jeito que sou por pessoas que nem conhecia, não sabia quem eram.

Nesta massa estavam famílias inteiras, pessoas que se uniram frente a uma injustiça que estava sendo acometida naquele momento e naquele lugar. Pessoas que eu mesmo jamais imaginaria que tomariam a posição que tomaram, até mesmo os surfistas se aglomeraram a massa que se formou para conter o senhor exaltado que queria nos agredir, e há horas nos ofendia com palavras de baixo calão. Neste momento confesso, o sentimento de acolhimento foi intenso, alguns amigos chegaram a chorar de emoção, e eu fui tomado por um sentimento bom.

Como me disse um amigo neste dia: “Em fim acredito que a humanidade tem jeito.”

São as pequenas atitudes que fazem as grandes diferenças.

Com mais de duas horas de atraso a polícia chegou, neste momento já bem mais aliviado relatei ao policia o que havia acontecido ali, o mesmo rio e me disse que não teria nada a fazer então, já que o senhor já não estava mais lá.

Nunca na minha vida tinha passado por este tipo de constrangimento, principalmente pelo meu jeito de ser, muito menos por um pouco de protetor solar, mas hoje sei que estou no caminho certo e amo cada vez mais a minha profissão e meu papel enquanto psicólogo.

Meus amigos e eu somos homossexuais sim, e isso não dá a ninguém o direito de nos desrespeitar de forma alguma.

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Fonte da imagens: enviadas pelo próprio Vinícius

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Resignificando trufas e afazeres

Hoje estou fechando um ciclo.
Conto que há dez anos atrás, quando eu era aprimoranda de psicologia clínica em psiquiatria, fazia trufas para ajudar no sustento do dia-a-dia.


Período difícil aquele. Quando se findou, também findaram-se esses fazeres . Lembro, inclusive, de minha terapeuta da época fazendo paralelos com o filme Chocolate: essas coisas de descobrir desejos escondidos, propiciar prazeres, etc. Nem a poesia interpretativa sustentou a continuidade da atividade.

Oito anos já se passaram desde o cessar deste labor paralelo. Após chantagens emocionais e/ou pedidos carinhosos, em 2010 prometi prxs amadxs que esse ano (re)conheceriam minha trufas. Isso que era quase lenda contada por familiares e amigxs de longa data. Isso que me lembra um período que o R$1,00 era bastante. E poupado, administrado, ganho por cada bocado de prazer vendido às pessoas
chocofílicas.


Parecia longe a tal “Páscoa 2011”. O tempo chegou.
Domingo: rememorar receita. Segunda: comprar ingredientes. Terça: picar e fazer a mistura. Quarta: enrolar, moldar, descobir. Hoje, quinta: banhar-maria e ver cascas frágeis surgindo para envolver a essência. Tudo pronto. Tudo à mesa. Secando e preenchendo a casa com o odor característico.


Também posso contar a outra maneira.


Domingo: rever receita com uma querida. Ouvir a voz da (não minha) professora de educação artística e fazedeira de trufas, doces de figo e cuidados (para mim) sem fim.

Segunda: andar pela cidade, descobrindo lugares para comprar coisas antes compradas em cidades distantes. Alarmar-me com os setenta por cento da alta dos preços em oito anos. Confortar-me que isso já não me importa.


Terça: dolorir a mão com a faca que corta o tijolo marrom. Recordar a força do braço e da canseira da mistura. Querer a amiga que vendia roupas em busca dos reais que também lhe faltavam. Sabe-la me ensinando a apreciar a tal trufa com café.


Quarta: dar pequenas porções às amadas que dividem a vida-casa comigo. Ensinar o jeito de moldar as porções. Criar expectativas do gosto completo por vir. Chorar porque a mãe ligou e delicadamente colocou uma música de quando eu pequenina.



Quinta: mais marias ao banho, e último, por fim. Pós sequinhas, ensacar em trabalho a quatro mãos. Conjugar o acompanhar sincero.

E foi assim que tudo se (re)fez. Trabalho não para lucros em Reai$, apenas para presentes reais.


Agora, enquanto escrevo, conto que ainda não tive coragem de provar o resultado concreto desse tal resignificar. Farei isso logo depois que postar.




Fonte das imagens: a cozinha aqui de casa.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Muitas faces da tragédia em Realengo-RJ

"(...)
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
(...)"
(Poema das Sete Faces.
Carlos Drummond de Andrade)

Conselho Regional de Psicologia-RJ em 14 de abril de 2011.

O Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro vem a público manifestar sua total solidariedade às famílias e aos funcionários diretamente atingidos pela tragédia ocorrida na Escola Estadual Tasso da Silveira em Realengo, e a todos os que, mesmo indiretamente, sofrem o im
pacto brutal da violência deste acontecimento.

Para uma dor de tal magnitude não se procura palavras vazias de consolo. Buscamos nesta nota problematizar a vida que vem sendo condenada a sobrevivência sob o julgo permanente da violência, das mais diversas violências, a qual todos estamos submetidos, cotidianamente.

Muito se tem discutido e interpretado nas mais diversas mídias acerca das motivações de Wellington, desde seu comportamento introspectivo, das humilhações sofridas na infância e adolescência e de um diagnóstico psiquiátrico, o qual, hoje apenas pode ser suposto. Muito se tem falado também sobre medidas de prevenção que garantiriam nossa segurança e de nossos entes queridos. Tais medidas, veiculadas em geral nos meios de comunicação de massa, têm como característica comum uma maior repressão: policiamento nas escolas, câmeras de vídeo, catracas eletrônicas e maior punição para os condenados. As soluções apontadas sinalizam que a sociedade deveria ser mais repressiva e punitiva, que solidária e acolhedora com a diferença.

Pouco se tem falado em tais mídias do modo como temos funcionado como sociedade. Diante de um acontecimento traumático e imprevisível, encontramos como explicação mais pacificadora para nossos afetos a “monstruosidade sociopata” de Wellington, advinda de uma patologia tranquilizadora para nossa suposta normalidade. Ao focarmos no indivíduo que empunhou as armas, deixamos de pensar a naturalização cada vez mais veloz da violência em nosso cotidiano.

Na nova ordem mundial é esperado que, sozinho, o indivíduo enfrente todas as adversidades da vida, muitas delas produzidas pelo modo como exploramos os trabalhadores, abandonamos os desempregados, os idosos, as crianças e os adultos fragilizados por uma sociedade onde se vale o quanto se pode comprar, o quanto se pode consumir.

Na atual ‘ordem’ carioca, cujo lema central da gestão estatal é o ‘choque’, como sair das análises individualizantes para fomentar reflexões sobre o campo social, avaliar o processo de trabalho das gestões públicas no investimento de políticas que garantam acesso aos direitos a todo e qualquer cidadão, no momento em que ele necessita, e não apenas diante da vivência de uma tragédia que produz incomensurável dor coletiva.

Neste sentido, nos cabe fazer algumas perguntas: como as políticas públicas vêm sendo implementadas e se mantendo na “cidade maravilhosa” para responder às violências cotidianas que afetam toda e qualquer pessoa? De que modo vem se estruturando a rede pública assistencial? Há serviços suficientes? Há profissionais concursados, com dignas remunerações para acolher às demandas crescentes, oriundas do sofrimento da população?

Diante da tragédia no bairro de Realengo, em que tanto se pedem psicólogos, psiquiatras, médicos, assistentes sociais e outros profissionais para o atendimento às pessoas que foram diretamente atingidas, o que dizer do fato de que, justamente nesta região, os serviços de atenção primária em saúde são escassos. Assim como são muito poucos os profissionais nos ambulatórios de saúde, nos Centros de Atenção Psicossocial (há apenas dois serviços de atenção diária em saúde mental para um território de quase 850 mil habitantes), e nos serviços de assistência social (CRAS e CREAS). Nada tão diferente da realidade da maior parte dacidade do Rio de Janeiro.

É preciso se preocupar com a continuidade do cuidado a toda e qualquer pessoa que em algum momento buscará a rede pública para atendimento de suas demandas, as quais, por mais que estejam sendo protagonizadas em um indivíduo, traduz uma produção coletiva do adoecer.

De fato, temos acompanhado que as políticas públicas de apoio solidário são abandonadas pelas gestões políticas, há muitos anos – a saúde é sucateada e levada à beira da falência, a educação é ignorada, a assistência social não consegue ampliar a implantação de seus serviços e articular ações visando proteção social e a Previdência Social condena quase todos à miséria, quando de seu adoecimento ou quando a idade deveria significar descanso dos longos anos de trabalho.

Seria possível encontrar saídas individuais para as mazelas nas quais estamos imersos? Eis uma questão impossível de ser calada, não obstante a espetacularização midiática que tem sido produzida no cotidiano de nossas vidas...


Vale a pena ler também:

Tragédia em Realengo se transforma em circo de horrores dissociado de reflexão social
ESCRITO POR DUARTE PEREIRA 13 de abril de 2011

ESCRITO POR ANA FLÁVIA RAMOS em 8 de abril de 2011

Fonte da imagem e fragmento de poema: Pavilhão Literário

domingo, 27 de março de 2011

Assalto no Rio ao som de Fraterno

Nesta semana estive no Rio de Janeiro a trabalho.
A cidade maravilhosa cheia de encantos mil fez com que eu amanhecesse o dia 25 de março cantarolando a música "Fraterno" que conheci na voz de Ney Matogrosso.
Segundo a letra de Pedro Luiz, a data cujo dia amanheceu solar era 25 de maio, e não de março. Todavia, eu amanheço meu dia conforme quero e a minha rádio mental toca o sucesso musical segundo minhas próprias associações. Logo, 25 de março era o ideal pra música e não se fala mais nisso.
E como a letra também diz de saudade de casa e lembranças aos amigos, enviei um torpedo pr@s amad@s com essa partezinha. Confesso: sou romântica.

O dia transcorreu tranquilo, o evento em que eu estava terminou com o ótimo discurso da Ministra do Supremo Tribunal de Justiça Nancy Andrighi, defendendo a união civil das pessoas de mesmo sexo. Seu discurso, memorável.
Já na saída do evento, indo pro hotel, o dia anoiteceu polar. Isso porque fui abordada e assaltada por dois jovens, a mão armada. Assustada e desorientada, consegui ao menos voltar para o local do evento, onde obtive toda ajuda possível das organizadoras do evento.
Cessada as etapas que envolveram: me acalmar; circular na joaninha da polícia carioca; tentar reconhecer os assaltantes; registrar ocorrência na delegacia e; voltar pro hotel com um amigo-irmão, fiquei pensando no quanto naquela noite se referiram aos assaltantes como vagabundos.

Quer saber, pra mim vagabundo é quem tem casa, comida, oportunidade de estudar e trabalhar e, mesmo assim, cresce e vive às custas de familiares ou amig@s, sem se responsabilizar por nada que não seja seu bem-estar, vivendo uma vida umbigocêntrica.
Pra mim, os assaltantes são marginais, no sentido de pessoas que vivem à margem e não tem nada dessas coisas que falei acima. Não tem direitos mínimos garantidos. E quem não tem direito, não tem dever. Logo, não são vagabund@s.
Enfim, sofri uma violência, os prejuízos materiais foram muitos, mas não dá pra deixar de fazer uma leitura da realidade dos fatos.

Deixo aqui um beijo fraterno para @s querid@s que me acompanharam (pelo braço, telefone ou computador) do momento do assalto até minha chegada de volta à São Paulo.
Para você que lê essa postagem deixo ainda a letra e a música que me acompanharam do dia solar até a noite polar. Espero que gostem.
......



Fraterno (Pedro Luiz)

"Hoje o dia amanheceu solar
Vi pela janela um céu azul
Tinha aroma que soprou do mar
Foi trazido por um vento sul

Levantei pra te escrever
Carta no computador
Frases fiz pra descrever
O que o jornal falou

Fogos de artifício, vícios, suicídio
Belezas e dores no vídeo
Surfe, tsunami invade o litoral
Lá no paraíso

Tinha tédio, assédio, contágio
Febre, suborno, litígio
Pontes, asfalto, pedágio
E um sobressalto acorda os vizinhos

Misses, mísseis, meretrizes
Clones, ciclones, ogivas
Beijos e finais felizes
Fazem parte destas mal tecladas linhas

Amanhã te escrevo mais
Deste diário moderno
Junto as saudações finais
Mando um beijo fraterno

Rio, 25 de maio
Te envio um sorriso
Te desejo uma praia
Tá chovendo granizo
Deu saudade de casa
Dê lembrança aos amigos
No momento preciso
Tome um banho de rio".

sexta-feira, 25 de março de 2011

O arco-íris ainda sangra


Abaixo, relato de mais uma agressão nas imediações da Paulista. Aconteceu há 02 dias, em 23/03/2011.
Não vou entrar no mérito se a violência está maior ou as pessoas estão denunciando mais. A questão principal é que as pessoas estão na rua vivendo a vida e do nada são agredidas por outras pessoas que, sem quê nem porquê, se incomodam com sua existência.

Sim, existência porque os LGBT não estão ditando nenhuma regra de que X ou Y tenha que ser um deles. Ninguém é obrigado a beijar a boca de ninguém, ok?

Agora, se você está passando na rua, vê duas mulheres ou dois homens de mãos dadas e isso "mexe contigo" de alguma forma, aviso: não é batendo, matando, xingando ninguém que esse seu incômodo vai passar.
Viva e deixe viver. É pedir muito?


Nota do setorial GLBT da CSP-Conlutas sobre a agressão de um grupo de skinheads contra nosso camarada Guilherme

Na madrugada desta terça para quarta-feira, dia 23, um grupo de quatro Skinheads agrediu covardemente nosso companheiro Guilherme, em mais um atentado homofóbico, na esquina da Rua Peixoto Gomide com a Augusta, local tradicionalmente frequentado por gays e lésbicas. Uma viatura da polícia que passava no local parou e deteve os agressores. O companheiro, sangrando, foi à 4º delegacia de polícia registrar o boletim de ocorrência contra o ataque homofóbico. Porém, ao tocar na palavra homofobia, o tom da policial que o auxiliara mudou e esta tentou dissuadi-lo de prestar queixa. Dentro da delegacia de polícia os agressores fizeram diversas ameaças ao companheiro, dizendo que tinham marcado seu rosto e iram atrás dele para arrebentá-lo. Após resistências da polícia, o BO foi registrado. Contudo, na hora de ir embora a polícia se negou a levar o companheiro até sua casa e o deixou sozinho para ser pego do outro lado da rua pelos neofascistas que haviam acabado de ameaçá-lo dentro da delegacia. Os agressores são Willyan Hoffmann da Silva, estudante; Vinícius Siqueli de Paula, operador de telemarketing; Daniel Moura Fragozo, estudante; Milton Luiz Santo André, estudante.

É preciso lembrar que este valoroso companheiro, além de forte atuante do movimento estudantil, é um militante do movimento GLBT e esteve na organização da Marcha Contra a Homofobia, realizada na Avenida Paulista, no dia 19 de fevereiro. Esta mesma marcha exigia a aprovação do PLC-122, projeto de lei que criminaliza a homofobia. Esta agressão ao nosso camarada é um atentado contra o próprio movimento e mais uma demonstração da urgência em se aprovar o PLC-122.

Nós do setorial GLBT da CSP-Conlutas exigimos das autoridades públicas a punição dos agressores. Denunciamos com força o descaso da polícia no tratamento com o companheiro, numa clara atitude de incentivo à impunidade de grupos de ódio. Exigimos que medidas sejam tomadas contra a policial que se negou a escoltar o companheiro até sua casa e o deixou à mercê dos seus agressores. Denunciamos cumplicidade da polícia que tolerou ameaças contra a vida do companheiro feitas dentro da própria delegacia. Exigimos que a corregedoria de polícia investigue o caso e tome as medidas necessárias que, para nós, envolvem sim ou sim a exoneração dos policiais cúmplices.

Nosso companheiro está sob ameaça! Alertamos as autoridades públicas, aos movimentos sociais e a toda a população que, se por ventura, qualquer coisa acontecer contra nosso camarada, a responsabilidade recairá totalmente sobre os ombros do poder público.

Chamamos a todos os ativistas do movimento que participem da entrega do laudo do IML na segunda-feira, às 14h na 4º Delegacia de Polícia, na Rua Marques de Paranaguá, 246.

Por fim, queremos dizer que o Estado não reconhece nossos direitos, a segurança pública falhou conosco e, portanto, só nos resta nos apoiarmos em nós mesmos, nos movimentos sociais combativos e na comunidade GLBT. Chamamos a todos os Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais a adotarem uma postura vigilante, a denunciarem os casos de agressão e a intercederem em defesa dos nossos. O direito de autodefesa contra os ataques homofóbicos é legítimo! Devemos agir como grupo, como movimento social! Chega de impunidade! Chega de silêncio!


Fonte da imagem: Capa da revista Forum.

quinta-feira, 3 de março de 2011

SedeDeQuê? e a Lua Nova

Nessa época pré carnaval, o que pouca gente lembra é que o tal feriado cairá justamente no "Dia de Luta das Mulheres", celebrado em 8 de março.

Não por isso, mas coincidentemente, o SedeDeQuê? lança sua nova fase.

Esse blog amigo que começou com um projeto onde usava arte para o enfrentamento da violência contra as mulheres, agora está com a proposta de usar recursos semelhantes pra falar sobre a legalização do aborto.

Visitanto a página lembrei da música "A Lua"...

A fase do blog é nova. Assim com a lua o é tantas e tantas vezes. Nova, minguante, cheia, meia...

Desejo que a renovação das ações em prol dos direitos de mulheres e homens se multiplique e se renove, como as fases da lua.






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A LUA (Renato Rocha)

A Lua
Quando ela roda
É Nova!
Crescente ou Meia
A Lua!
É Cheia!
E quando ela roda
Minguante e Meia
Depois é Lua novamente
Diiiizz!...
Quando ela roda
É Nova!
Crescente ou Meia
A Lua!
É Cheia!
E quando ela roda
Minguante e Meia
Depois é Lua-Nova...
Mente quem diz
Que a Lua é velha...(2x)
Mente quem diz!