sexta-feira, 10 de abril de 2009

Notícias Africanas 03 (ou "O Velho Leslão")



Dia 07 de abril é o dia da Mulher Moçambicana. Eu estava bem entusiasmada achando que poderia participar de alguma manifestação/festividade da sociedade civil. Que nada! As comemorações são organizadas pelo governo atual (que é o mesmo desde o final da guerra!) e as manifestações foram feitas propositalmente no dia 08 de março, que é o Dia Internacional de Luta Pelos Direitos das Mulheres.

A escolha pelo 07 de abril é em homenagem a Josina Machel (1946-1971) (em solteira, Josina Muthemba) que na juventude fugiu de Moçambique para lutar pela independência do seu país. Em 1969, Josina casou-se com o primeiro presidente eleito, com quem teve um filho. Com a independência de Moçambique, o dia de sua morte foi consagrado como o Dia da Mulher Moçambicana. Na luta pela libertação de Moçambique desempenhou um papel muito importante. É considerada uma heroína em Moçambique.

Mas voltemos ao hoje! Uma coisa interessante que a chamada “mulher moçambicana” faz em seu cotidiano, igualzinho nossos indígenas, é carregar a criança amarrada ao corpo. Na frente ou atrás... E então me lembrei de que quando eu era adolescente uma colega deu a luz a um bebezinho prematuro. Ela então participou do projeto “inovador”, chamado “mãe canguru”. O projeto consistia em que ela levasse amarrada junto a si o seu bebê, substituindo assim muito dos cuidados hospitalares, fazendo o bebê se desenvolver melhor...

Já agora nos anos dois mil e algo vejo um debate do quanto hoje em dia não “sabemos mais”, e sim trocamos um conhecimento por outro... Sabemos muito sobre computadores, celular, blábláblá, mas se nos perdermos em uma mata não saberemos qual planta não tem veneno pra comer... onde tem água... Olhando as mulheres pelas ruas da cidade penso na mãe canguru... O tal projeto de minha adolescência que reinventava a roda, por um conhecimento desaprendido...

Outra coisa que faz tempo queria dizer é sobre o racismo! Teve uma campanha no Brasil que perguntava as pessoas: “Onde você guarda seu racismo?”. Vamos a isso! Um dia entrei em uma sala de reuniões de um serviço de saúde e todas (todas!) as pessoas eram negras. Claro que nascida e criada no Brasil isso não passou despercebido aos meus olhos! De repente ativista, médica, socióloga, psicóloga, eticeteróloga eram negras! Não sei nomear a sensação! Claro que eu já tinha refletido não ter tido NENHUM professor negro até minha pós-graduação, e não ter NENHUM colega de trabalho psicólogo negro até 2007... Mas essa sensação corporal, mental, emocional (ancestral?) que senti é indescritível!

Penso agora em um homem, negro, do sertão da Bahia, analfabeto, lavrador aposentado com um salário mínimo, com ascendência africana de algum país que não se sabe o nome. Saiu de sua terra pra tentar a vida no “sul maravilha” e nunca mais voltou! Ele, há 25 anos, sempre ia de carroça pra cidadezinha perto do sítio onde morava. Ele ia buscar “lavagem” nas casas da cidade pra alimentar os porcos. Às vezes levava sua netinha com ele. E ela se sentia toda feliz e importante por participar do trabalho do avô: em cima da carroça pela estrada; se equilibrando pra não cair ao balanço do cavalo; indo de porta em porta abastecer os tambores que levavam. Nessas oportunidades, quando o trabalho acabava, antes de voltarem para o sítio o avô parava em uma mercearia para menina tomar uma “sodinha” e escolher um doce na vitrine. Esse dia sempre era uma festa em seu coraçãozinho! Sempre era um doce-de-abóbora de coração que ela escolhia. E sempre, Sempre, SEMPRE!!!, alguém perguntava “_Como um homem ‘preto feio’ desses pode ser avô de uma menininha tão linda?”. O avô sorria sem jeito, fingindo não se importar com a brincadeira. A menininha tentava também esconder a tristeza por terem dito que ele não era seu avô. Por terem dito que era feio. Acho que o coraçãozinho da menininha chorava baixinho, como um doce-de-abóbora derretendo nas mãos: devagarzinho. O avô se chamava Antônio de Assis Leslão.

Nunca vi meu avô dizer que é negro com tranqüilidade. Quando ouvi algo, foi mais como um preto-encabulado. Acho meu avô nunca foi atendido por nenhum médico negro. Acho que ele talvez não se lembre dessa história. Acho que é por isso que uso o Leslão. Leslão é minha escolha porque não é de “preto feio”. É de negro lindo. Que eu amo!

Sem mais por agora, fico por aqui!


Beijos... Saudades...

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3 comentários:

Alexandre Leslão Garcia disse...

JA HAVIA LIDO MAS HOJE LI NOVAMENTE NO SEU BLOG, ESTA DECLARAÇÃO E ME ARREPIEI NOVAMENTE E DEU UM NEGÓCIO NE MIM, ME LEMBREI DA BAIXADA DA AREIA, DE OURIZONA, OS PÉS DE FRUTA, DO FOGÃO A LENHA EM QUE FAZIAMOS PASSINHA DE PÃO ASSADO, DA BANHEIRA EM QUE ESCORREGÁVAMOS, DO PITI, DAS HISTÓRIAS CONTADA PELA VÓ TODO DIA DE MANHÃ(POIS INVADÍAMOS O SEU QUARTO), DAQUELE CASARÃO, DO BALANÇO NO PÉ DE PATA DE VACA, DOS CASTELOS DE AREIA, DE LAVAR O MENINO JESUS COCHO DAS VACAS PRA CHOVER,O ÚLTIMO DO GRITO DOS PORCOS, DOS MIÚDOS DOS PORCOS COZIDOS COM SAL, BIJU, TIO NEGÃO, TIO IVO E FAMÍLIA, PÉS DE MANGA CARREGADOS E TUDO TANTAS OUTRAS COISAS A MAIS QUE FIZARAM ENRIQUECER AINDA MAIS NOSSA INFÂNCIA.

TE AMO

E CONTINUE ESCREVENDO!!!

Janaína Leslão disse...

Esse é meu irmão, que me faz chorar... De saudade da gente-criança-junto... Te amo!

Márcia Regina disse...

Li hoje pela primeira vez o seu Blog, está lindo!
Que bom você ter atndido os pedidos da Paulinha.
Esta história do seu avô é comovente, linda! Cada vez mais entendo de onde vem pessoa tão doce e tão gente.
Continue escrevendo!
Um grande bj
Márcia