Um pouco do que vejo, ouço, leio, sinto e meus devaneios acerca disto tudo...
Nada aqui pretende ser "verdade". Devaneios são devaneios. SEJA BEM-VINDX
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Notícias Africanas 13 (de Mz para Br)
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Notícias Africanas 12 (Safari Marinho)

Fiz um Safari Marinho. Mas nem sabia que iria fazê-lo.
Em Inhambane, Moçambique, hospedadas na Praia do Tofo, queríamos ir passear de barco, ver peixinhos, nadar no mar. Por sorte, havia um serviço desses naquela mesma praia.
Domingo. O dia estava lindo, céu límpido, iluminando a água de modo perfeito para observação. Chato foi caminhar ao sol africano das 11h, até o local de saída. Pra ajudar uma legião de “besouros tamanho fusca” se encantou com o “brilho” do protetor solar em meu rosto. Digamos que esse tipo de “atração” não é legal de provocar.
Chegando ao local, o primeiro choque foi com as instruções do passeio. Embora estivéssemos em um país cuja língua oficial é o português, todas as instruções foram dadas em inglês. Com algumas dúvidas, nos dirigimos ao guia do passeio, que era moçambicano. Mas isso não ajudou muito porque o português dele só não era pior que o meu inglês.
Sobre o passeio entendemos:
- a roupa de mergulhador era opcional.
- deveríamos segurar muito bem no barco para não cair
- não tocar nos tubarões
Não tocar no tubarões? Bem, avistar um bicho desses deveia ser um imprevisto...
Já no bote inflável, sem salva-vidas e sem bóias aparentes, segui sem titubear à instrução de segurar. O motor do bote era muito potente. Os 20 passageiros sentados na borda agarravam-se as cordas disponíveis e metiam os pés dentro das fitas de segurança pros pés. “_O Julio nos atestaria insanidade”, pensei enquanto sentia muito medo, recordando de nosso amigo medroso de água. E, desta vez, devo admitir que ele estava certo.
O bote se afastou muito da praia, preferindo locais de água azul escura, pesada, profunda. No trajeto distribuíram as máscaras e os “snorks”. Observando o mar na busca por um banco de corais ao longe, notei que perto não havia escada para subir a bordo após o passeio com os peixinhos. No contexto da insegurança, um item a mais, um item a menos....
De repente uma ordem “_Jump!”. E não obedeço à ordens com facilidade. Ufa.
Os corpos saindo do barco ao comando da voz e entrando n´água. Na água um enorme tubarão baleia. Não acreditei. Quem pulou também não acreditou. Ao "jumpar" os pés quase tocavam o bicho. Faltava ar devido ao susto, não devido a água. Água boca adentro de quem na água estava boquiaberto.
Resumindo, esse “passeio com peixinhos é assim”: O guia de olhos experientes encontra o bicho e dá o comando para pular. Quem quer pula e o barco sai a buscar mais algum bicho marinho. As pessoas nadam atrás do bicho achado e quando ele some esperam o barco se aproximar. Sobem no barco até o próximo “_Jump!”
Subir no barco... Lembra da roupa de mergulhador opcional? Sim, é opcional caso você consiga subir no barco apenas com seu impulso corporal, sem auxilio de escadas ou de outros seres humanos. Na pratica ela serve pro resgatado não machucar a barriga na borda do bote e pros resgatadores terem onde agarrar ao retirarem o corpo resgatado da água. A opção sem neoprene dá direito a barriga ralada e roxos na pele devido ao agarramento das mãos de seus salva-vidas.
E nesse pula e volta, fiquei no barco pra não pagar o mico de ser resgatada. Fiquei resgatando até meus braços doerem. Vendo os bichões na água, sem perder nenhum detalhe. Mareando até compartilhar meu café-da-manhã com os peixes.
Horas depois, os bichos se recolheram, ficamos parados e o mareamento deu uma generalizada. Segundo o guia não podíamos voltar porque o carro pro bote não estava posicionado na areia. Incrédula, eu já estava começando a brigar com o guia:
"_Senhor, é um absurdo ter que esperar o carro na areia. Tá todo mundo passando mal e_ apontando pra minha companheira que estava verde_ essa senhora vai desmaiar".
Ele, dando-nos as costas e apontando pro mar:
"_Vejam as baleias que fica melhor!"
E neste momento uma grande quantidade de baleias surgia na nossa frente. Adrenalina. Lenta e imponentemente elas apareciam na superfície . Passeavam pouco a pouco toda a extensão de seu corpo pelo ar. Terminavam em um mergulho que exibia toda a calda, mesmo como nos filmes. Em sua gigantez, pareciam um submarino de carne e calda.
Depois desta, já podíamos voltar. Rápido em direção a praia o “motorista do barco” acelerou mais quando avistou a areia. E a instrução de segurar ressoou. O bote sai do mar com um impulso, direto pra areia, com-todo-mundo-dentro. Um Gran Finale para a mais louca aventura.
Para relaxar com os peixinhos dourados e de mais cores, visite Pemba.
Em Inhambane tem Safari, para estar com o que apelidados de “Big Five Sea”: tubarão+ raia+ golfinho+ baleia+ aquele outro, ué.
Sobrevivi, mas não faria duas vezes.
Foi pro currículo, e não me arrependo.
Recomendo, com moderação.
Moderação é sinônimo de neoprene.
Fonte da imagem: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Whale_shark_tofo_mozambique_2007.jpg
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domingo, 15 de novembro de 2009
Notícias Africanas 11 (Inhambane)
Calhou de meu último final de semana em Moçambique ser feriado prolongado.
Assim, nada melhor que conhecer um novo lugar para fazer da despedida algo especial. Foi então que soubemos que muitos dos moradores “com carro e/ou algum dinheiro” de Maputo vão para as praias de Inhambane, passar feriados ou férias.
Maputo fica no litoral, porém é uma região de porto, com águas turvas. Bonito é ver os grandes navios no vai e vem em sua baia. Já o banho de mar e a esticada na areia é possível, mas não estão na categoria de “um convite irrecusável”. Por isso quando podem, os habitantes de Maputo se deslocam cerca de 500 km, para as paradisíacas praias mais ao centro do país.
Então, sem carro e com algum dinheiro, decidimos de supetão a ida para Inhambane. Depois de muitas horas na internet e no telefone, tínhamos a reversa em um hotel e as passagens de avião. As muitas horas foram necessárias porque em terras moçambicanas as informação não estão todas on line. E mesmo quando há alguma, o acesso se dá por caminhos tortuosos.
A aventura começou já no aeroporto, onde nos deparamos com o avião! Era um avião brasileiro, com 27 lugares, e eu nunca tinha voado em avião tão pequeno. Se bem que quando saí do Brasil em direção a Moçambique nunca tinha estado em um avião tão grande! Quando vi o avião gigante em solo brasileiro pensei: esse aí não sobe nunca! Quando vi esse menorzinho pensei: esse sobe, mas vai se desintegrar durante o vôo.
O vôo Maputo-Inhambane é curtinho, mas tem escala! A escala é feita quase no destino, e pelo que deu pra perceber é ali que ficam os estrangeiros mais endinheirados ou as pessoas que guardam uma graninha pra um “passeio especial”. É que neste aeroporto ficam as vans que irão transportar os hóspedes do “Flamingo Bay”, um hotel tchananans e que tem os chalés sobre as águas. Muito parecido com umas fotos que já vi da Tailândia. Para quem está acompanhado de menores de 12 anos e/ou não tem muitos dólares no bolso, resta suspirar e seguir viagem. Seguimos!
A Praia do Tofo é muito simpática. Os seus varais coloridos, onde os moradores que vivem do comércio expõe seus produtos, recebem os turistas com alegria, gingando as cores com o vento! Na praia, muitos quilômetros de areia e água suficientemente limpas. Na ponta direita ainda se pode escalar um morro coberto por pedras e vegetação e descobrir, quando se chega ao topo, que aquilo é uma duna que se entende pro outro lado, lado de uma linda praia deserta.
No sábado, um evento mensal atraiu muita gente para o Tofo. É “O Dia da Limpeza”. Voluntários se distinguem por suas camisetas temáticas (flores para a limpeza da praia e mergulho para a limpeza do mar). Tudo começa bem cedinho e, terminada a limpeza, a parte da tarde é reservada para curtir a praia (e promover nova sujidade).
Já que o Tofo estava muito cheio, fomos passear na Praia da Barra! Estávamos receosas, pois nos contaram que lá só podia entrar branco! Segundo um negro moçambicano de Maputo os sulafricanos queriam levar o apartheid para Moçambique. E como fizeram isso? Construíram hotéis e restaurantes na praia, de modo que ela ficou totalmente fechada, e o acesso só se dá passando por esses estabelecimentos. Assim, os moçambicanos, que são majoritariamente negros e pobres, não freqüentariam esses locais. Logo, a praia ficava “privativa”.
Mas não foi tão mal! Entramos pelo dito hotel, nos acomodamos em esteiras e já desfrutávamos da larga faixa de areia fina e branca, quando surgiu um grande grupo de moçambicanos! Eles entraram por outro acesso, trazendo em suas mãos comidas e bebidas para passar o dia. No Brasil, chamaríamos de “farofeiros”, mas lá, estão mais pra “frangueiros”, porque levam os frangos para assar na beira da praia. E, assim, com o coração mais aliviado por ver que há formas de burlar a segregação, o mar de ondas bravas ficou mais bonito!
Fim do dia, voltamos pro hotel e tivemos a melhor noite do passeio. Uma banda de jazz tocava no restaurante do nosso hotel, a céu aberto, na orla da praia. Muita gente confraternizando e dançando muito! Moçambicano adora jazz! O show também era parte da programação d’O Dia da Limpeza. Entre as músicas muito dançantes, até um pouco de Djavan. Música boa e boa companhia... Que mais eu poderia querer em meu último final de semana em terras africanas? Não deu pra resistir, fomos festar junto!
No domingo, ainda fizemos um “Safari Marinho”... Mas isso conto outra hora! Porque esse texto era só pra “intruduzir” o Safari, mas acabei escrevendo demais.
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Foto inicial, Praia do Tofo. Fonte:http://lh5.ggpht.com/_vW9_0kWYUdY/SBIdvnFs1tI/AAAAAAAAATc/s452rwbTfwk/DSC01724.JPG
Foto Final, Hotel Flamingo Bay. Fonte: http://www.tagasafarisafrica.com/images/mozambique-resorts-flamingo-bay-water-lodge-pic1.jpg
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sábado, 17 de outubro de 2009
Notícias Africanas 10 (Pemba, que não é de Angola)
Nas últimas Notícias, falei das viagens ao redor de Moçambique. Hoje vou contar da viagem que fiz a Pemba, capital da província de Cabo Delgado, região norte de Moçambique!
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Antes da viagem, já foi interessante alguns colegas de trabalho moçambicanos admirando a visita à Pemba. Então me dei conta que quase ninguém conhecia aquela província. Isso devido a distância e, consequentemente, aos preços daquele deslocamento.
Assim como no Brasil, onde só os mais privilegiados conseguem conhecer uma região bem distante de onde vivem, lá acontece a mesma coisa. Moçambique é grande! E Maputo é no Sul do país. É mais fácil, ir à África do Sul.
Mas, voltemos a Pemba! Ali encontramos a terceira maior baia do mundo! E, talvez, a mais linda! Suas águas são multicores. Pinta-se de azul escuro (índigo blue), azul claro, verde água e transparências quase irreais!
Passeando de barco pela baia, podemos nadar em jardins de corais, junto a peixes de diversos tamanhos e cores. Ver estrelas do mar e ser surpreendidos por um bando de golfinhos! Segundo explicações locais, eles gostam do barulho do motor do barco e vem saudar os visitantes! Curioso também é a percepção do nosso condutor! Homem do mar avista os golfinhos quando apenas ondas são perceptíveis para moças da terra.
E as belezas da terra são muitas. Primeiro o majestoso hotel, cuja arquitetura denuncia a proximidade de Pemba com o Oriente, quer seja o “médio”, quer seja o indiano. Mas para não torturar ninguém com meus conhecimentos tortos sobre o tema, confiram na fotografia isso que falo da construção!
E, em terra, encontramos ainda um dos mais ilustres símbolos africanos: o baobá! Aqui chamado de imbondeiro! A visão da grande árvore já nos arremessa para as lembranças do “Pequeno Príncipe”! Mas sobretudo é uma visão praticamente mística. Talvez seja impossível olhar para essa árvore, ao menos uma vez, e não se admirar de algo... Os sentimentos podem ser diversos, mas para mim foi que aquela vida era plena e forte e grande e imponente e gigante e acolhedora e geradora e bastante e bastava.
Confesso que mesmo com as distâncias continentais, pensei na “Pacha Mama”, divindade feminina, Deusa de origem andina, que é cultuada em alguns lugares da América do Sul, principalmente na Bolívia. Não conheço muito sobre ela, mas uma das coisas que sei é que está ligada a terra, e às vezes é representada por uma árvore. Humm, e se é uma Deusa, bem que poderia esta alí no "meu baobá"...
Posteriormente, um homem de Pemba, que vive em Maputo, me contou que o imbondeiro é usado em alguns rituais tradicionais. Quando uma pessoa precisa de mais força, saúde, coragem, quando está passando por momentos na vida que necessita de muita ajuda, faz-se um rito junto ao imbondeiro, pedindo-lhe a força que tanto demonstra ter. Algumas pessoas ainda cavam seu tronco e fazem ali sua morada.
Eles existem aos montes! Na cidade, na mata, nas ilhas... Estão por todo canto! Estão também no caminho “das compras”.
Apesar de não ser uma “Meca do Consumo”, Pemba conta com um artesanato admirável. Encanta-me as esculturas em madeira (e as histórias que os vendedores contam sobre elas, caso alguém mais curios@ pergunte...). Mas particularmente, o que chama a atenção da maioria dos turistas, são os brincos, colares e pulseiras feitas de fios de prata. O metal é trabalhado aos fiozinhos, formando verdadeiras rendas metálicas, belíssimas!
Há também uma rua onde se pode comprar capulanas muito diferentes das encontradas em Maputo. Elas são capulanas da Tanzânia, país que faz divisa com Cabo Delgado. Frente a tanta beleza, difícil é resistir a esses tecidos... Um pouco mais difícil é convencer o “Raio X” do aeroporto que não há problemas em levar essas capulanas.
Como assim, convencer o “Raio X”? Bem, é que no aeroporto não existe essas tecnologias, então antes de sair da cidade sua mala e você são submetidos a uma revista a moda antiga: a visão e o tato das funcionárias e funcionários do aeroporto!
Seja como for, não é nada complicado ou invasivo! Se tiver oportunidade de grandes viagens, conheça Pemba!
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Notícias Africanas 09 (Reino da Suazilândia)

Chegou o momento de falar sobre a Suazilândia! Como muitas pessoas, eu nem sabia da existência da Suazi, antes de chegar a Moçambique.
Suazilândia é um país bem pequenininho, rodeado quase que inteiramente pela África do Sul, exceto a leste, onde faz fronteira com Moçambique. Tudo o que me informaram sobre esse país antes de minha partida é que lá era frio e montanhoso. Logo pensei: “_Serras gaúchas aí vamos nós!!"
Com um final de semana prolongado, lá fomos nós em busca de novos ares e colocar no passaporte um novo carimbo! Boléia de amigos no sábado cedo e uma pequena viagem de 1h até a fronteira entre os dois países citados.
Enquanto eu “fazia a fronteira” observei que na construção havia duas fotos enquadradas na parede. Em uma delas estava Mswati III, o rei atual, e na outra o rei anterior, seu pai. E o mais interessante é que aqui o rei não é “de enfeite”! O país tem uma monarquia absolutista mesmo. Nada tem maior, ou igual poder, do que o rei, que, assim, concentra em sua própria pessoa os poderes legislativo, executivo e judiciário! Poder absoluto, ainda que em um pequeno território!
O rei tem treze esposas. Ao menos esse era o número a um ano atrás. Talvez alguma outra já tenha se juntado a elas. Disseram-me que tem um dia no ano que as famílias levam suas mulheres para a praça, onde o rei escolherá uma delas para se casar. Inclusive, depois de modificar uma lei que proibia o casamento de menores de 18 anos, ele mesmo se casou com uma moça de 17. Mas que fique dito que aqui privilégio do rei é escolher a esposa na praça, porém a poligamia é permitida a todos os homens.
E, já no caminho, pudemos observar que Mswati III é onipresente! Isso porque seu rosto está por tudo o que é lado, inclusive na estampa das capulanas que as pessoas usam ao caminhar pela estrada. Estrada essa sempre com uma ou outra pessoa, porque me pareceu que é tudo muito espalhado. Uma casinha aqui, outra lááá ao longe. Casinhas de caniço ou de barro, cobertas com teto de palha. Palha que está à venda (?) ao longo de toda estrada... Eu, em minha ingenuidade, achei que fosse uma espécie de feno, pra alimentar as vacas. Ai, ai...
Ah, as vacas! Elas não ficam em cercados. Para desespero dos motoristas vivem aos montes e por toda a estrada. Algumas são marcadas a ferro, outras, não tem nenhum sinal visível para olhos mal treinados como os meus. Difícil saber de quem é a vaca. Andam sozinhas entre, ao lado e na estrada. Não tem medo dos carros que, pacientemente, tem que parar para que as bovinas passarem... Ca da u ma a se u tem po... ...
A capital do país, Mbabane, é também bem pequena. Lembrou-me as pequenas cidades do interior de São Paulo. Eu não sei quantos habitantes tem a cidade, mas o país tem pouco mais de um milhão. E quando eu digo que o país é pequeno, é mesmo! Um pouquinho mais que 3 vezes o Distrito Federal (Brasil).
O povo vive do que produz em seu quintal, de suas vacas e do artesanato. As esculturas e os demais objetos trabalhados por eles são absurdamente lindos, porém os batiques não são tão bonitos quanto os dos moçambicanos. Falam inglês e suazi. Os produtos industrializados são advindos maciçamente da África do Sul.
É uma gente muito, mas muito, simpática e bonita. Aqui as mulheres carecas também são freqüentes, o que destoa das tranças de Moçambique e do laquê da África do Sul. O país tem um altíssimo índice de HIV, algo como 35% da população vive com o vírus. Como eu brincava essa semana com uma amiga, o país é uma bomba: gente simpática, bonita e com 35% de HIV!! Seria cômico se não fosse trágico...
Bem, só posso dizer que desfrutar da arte, do artesanato e da estada na terra dos suazis foi muito bom! Pena que final de semana prolongado dura pouco.
Quando alguém estiver por essas bandas, visitando algum país mais conhecido, dê uma voltinha por lá! Cruza-se a Suazi de leste a oeste em apenas 4 horas! "_Vala pena!"- como diriam os vizinhos moçambicanos!
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Notícias Africanas 08 (África do Sul)

Aproveitando a temporada, visitei a África do Sul e a Suazilândia.
A diferença entre os dois países já começa pela popularidade! Enquanto muitos tomam a África do Sul como sendo a África em si, a maioria das pessoas nunca ouviu falar na Suazilândia.
Por ordem de chegada, vamos primeiro a África do Sul. Ordem de chegada minha, que fique claro! É que para vir para Moçambique, temos que fazer escala no aeroporto de Johanesburgo. Isso porque esse aeroporto faz (eu acho) quase todas as escalas para posterior distribuição dos passageiros que vão para os demais países do continente africano.
Detalhes do aeroporto: de tão grande, boa parte dele é servido de esteiras rolantes; tem uma loja enorme de super mau gosto, que exibe uma pele de zebra na parede e uma bacia de metal gigante cheinha de marfim; no banheiro feminino quem fazia a limpeza era um homem.
Depois, conheci uma cidadezinha chamada Nelspruit. É pra lá que quem vive em Maputo- capital de Moçambique- vai para “consumir”. Essa cidadezinha é linda. Tem os "ares londrinos da minha imaginação" (risos)... Ruas largas e limpas, casas gramadas, tudo sempre novinho e bem cuidado!
E, como eu disse que nessa cidade se consome, passeemos no shopping center. Pra começar, as pessoas mistas são praticamente inexistentes, assim como aqui em Moçambique. Ou se é negro, ou se é branco. Realmente o fenômeno da miscigenação no Brasil é fantástico! Também não precisava dizer, mas vou correr o risco de ser óbvia: quem trabalha servindo as mesas e na limpeza são pessoas negras.
Agora, falemos do vestuário, moda, estética ou algo que o valha. As crianças são lindas, mas os adultos, nem por isso! Tudo muito diferente de nosso padrão. Mulheres: os cabelos curtos ou médios, sempre com muito laquê ou alguma outra goma, não se movem de tão duros. O golpe de misericórdia fica por conta das unhas dos pés e das mãos pintadas de laranja fluorescente ou verde limão. Homens: chapéu, bermuda e camisa estilo Indiana Jones.
Pra terminar a sessão sobre a South Africa, um fato muitíssimo interessante: as crianças e adolescentes andam descalço. Seja na praça de alimentação ou no banheiro molhado. Os pés nus indo e vindo sem nenhum pudor ou nojo. Alguns adultos também andam sem nada nos pés, porém com menor frequencia. Mesmo assim algumas pessoas me descreveram que na passagem de ano 2008/2009 viam os sulafricanos entrando e saindo dos lugares com os pés no chão, mesmo com a absurda quentura da areia ou do asfalto; mesmo com a molhadez do banheiro cheio de líquido suspeito escorrendo pelo chão.
Por hora é isso...
Continuo logo em breve, falando da Suazi!
PS: A imagem que ilustra essa postagem é uma foto de um agradabilíssimo shopping country da cidade... A comida divina é servida com um bom vinho sulafricano, enquanto os visitantes se sentam a grandes mesas de madeira maciça estrategicamente posicionadas embaixo de acolhedoras mangueiras. Onde estão as mangueiras? Bem ali, atrás desta construção!!!
domingo, 9 de agosto de 2009
Notícias Africanas 07
Seja como for, as duas operadoras existentes fazem uma guerra na propaganda. A Mcel financia a publicação de livros de escritores Moçambicanos, enquanto a Vodacom patrocina alguns cantores e concursos de dança nacionais. Também é comum reconhecer suas marcas em muitos, e muitos, lugares da cidade, pois pintam taxis, bancas de frutas e muros com suas cores e logos. Quanto às cores são bastante chamativas. Mcel amarelo, Vodacom azul. Inclusive, já se estuda um sistema para melhorar as multas por propaganda excessiva, pois não é raro ter muros ou imóveis inteiros com centenas de metros quadrados de pura propaganda, o que gera muita poluição visual.
O uso do celular é tão importante por aqui que algumas pessoas estão desenvolvendo programas de celular específicos na área de saúde. Um dos desenvolvedores destes programas explica que mesmo o nível de instrução ainda seja baixo entre muitos trabalhadores de saúde, o celular e o manejo deste é um fato entre todos. Um desses programinhas, por exemplo, permitiria alimentar formulas com dados simples e saber qual a dosagem exata de medicação para uma criança de tal peso! E isso absolutamente não é inútil dada à quantidade de crianças neste país. Assim, nenhuma forma de garantir qualidade e poupar um pouco de tempo, por mínimo que seja, no atendimento a elas é bobagem!
No mais, enquanto escrevia esse texto o som ambiente era de uma roda de capoeira. Fomos procurar e realmente havia uma roda de jogo na orla da praia, pertinho de casa. O bacana é que os jogadores eram moçambicanos, a capoeira de angola e os pandeiros com a bandeira do Brasil. Pra encerrar o jogo, os berimbaus, pandeiros e palmas saíram da capoeira para o toque de samba de roda; não demorou e já era marrabenta!
(1) Expressão do Hino Nacional de Moçambique que se refere às extremidades do país. É como se fosse “de norte a sul” ou, para os brasileiros, “do Oiapoque ao Chuí”.
(2) As mulheres que trabalham na rua são em menor número, e vendem grãos, legumes e frutas.
(3) A projeção para 10 anos era de 6.500 usuários, porém atingiu um milhão 6 anos após a implantação.
domingo, 5 de julho de 2009
Notícias Africanas 06

Sinceramente só vou reler o que escrevi na primeira semana após terminar esse texto, mas o que posso dizer, finalmente, é que o povo moçambicano é muito simpático e de sorriso fácil. O que é uma maravilha (1).
No primeiro contato, principalmente com uma mulunga (2) como eu, as pessoas de Moçambique são mais desconfiadas, frases curtas, um modo mais formal e seco. Mas depois tudo fica tranqüilo. E para isso vale aquela sábia frase do filósofo Ditado Popular: “gato escaldado tem medo de água fria” (rsrs). Afinal, a experiência diz que a chance de que uma pessoa branca os trate mal é bem grande, logo, melhor se aproximar com cuidado! Depois de superada essa fase, vem aquele sorriso e o convívio gostoso.
Pra ajudar, muitos admiram o Brasil, principalmente pelas coisas que assistem nas novelas. Em alguns lugares em que eu estive a conversar, as pessoas imitaram o meu sotaque, mas logo foram dizendo que estavam brincando por que achavam bonitinho o modo de falar dos brasileiros. Outra vez, em um taxi, me pareceu que a moça da rádio era brasileira. Perguntei ao taxista e, para meu espanto, ele disse que não. Mas que a locutora, sim, imitava o sotaque do Brasil porque as pessoas gostavam de ouvi-lo e isso dava mais popularidade a ela e a radio.
Claro que nem tudo são flores. Há aqueles que dizem que os brasileiros vêm para cá roubar os bons empregos dos moçambicanos. É certo que a mão-de-obra qualificada aqui ainda está em processo de formação e que existem muitos brasileiros no país; Mas também vale lembrar que esse discurso do “roubo do emprego” está presente em muitos países (talvez em todos?) e que, se existem muitos brasileiros aqui, também existem muitas outras pessoas de outras nacionalidades.
Pra terminar, falo sobre o tema de outra amiga do Brasil: problemas domésticos! Conversando pela internet, ela me disse que estava com um problema na torneira de sua cozinha, e que esses problemas domésticos a matavam! Sim... Isso é um saco, mas "não há mal que não possa ser piorado!" (3) Rsrs E vamos ao “causo”:
“Finalmente o frio chegou! E a felicidade se fez presente para essa pessoa que vos escreve. Nem imaginava que o gostoso friozinho poderia trazer algum tipo de transtorno. Engano... O problema já não era como suportar o calor, e sim como aquecer a água do banho durante o frio. Foi aí que descobri que a casa tinha um aparelho chamado “termo-acumulador” e que ele aquecia a água para toda casa. Se a água estava fria, era ele que precisava ser regulado.
O eletricista foi chamado e a ele foi dito que o aparelho precisava aquecer mais a água para aqueles dias frios. Ele veio, examinou o aparelho, fez algumas mudanças e, ao final, disse “já está”! Cliente satisfeita com a afirmação do eletricista, eletricista satisfeito com o pagamento recebido.
Finalmente o esperado momento de um banho quentinho. E o choque de receber uma água gelada. Gelada para espanto da mente e aflição do corpo! Isso mesmo! A água estava pior do que antes! Terminado o difícil banho, nova ligação para o eletricista._Senhor, o senhor veio a minha casa hoje pela manhã e me afirmou que tinha regulado o termo-acumulador para aquecer mais a água. Porém acabo de sair do banho e a água estava pior do que antes, a água estava gelada. Como o senhor regula o aquecedor de toda a casa e a água sai gelada?
_Aaah, senhora, a senhora não disse que o problema era no chuveiro!
_ ???
E não adiantou argumentar que o chuveiro não era um aparelho a parte, que dele apenas saía a água vinda do termo-acumulador!
Bem, depois desta e de outras tantas, já sei! Aqui 'pingo não é letra' e 'meia palavra não basta'! Brasileir@s é que tem uma 'mania de inferência'! Quando alguém nos conta algo, já estamos imaginando o final. E também às vezes iniciamos um assunto pela metade e o nosso interlocutor vai seguindo as pistas e contextualizando tudo.
Acho que no Brasil quase tod@s se lembram de estar conversando com alguém, e no diálogo aparece a pergunta 'do que você está falando?' , e logo a resposta 'calma, logo eu chego lá!' ou mesmo 'calma, logo você vai entender!'.
Uma das coisas ótimas de estar em um lugar que não é seu, é aprender mais sobre o lugar de onde você vem.”
(1) o que dizer de alguns brasileiros? Veja o que aconteceu a uma atriz moçambicana em visita ao Brasil: http://mannybarbosa.blog.uol.com.br/arch2009-06-14_2009-06-20.html#2009_06-20_02_46_51-130098600-0
Imagem: Passeio na Baia de Pemba. Cidade que fica no norte de Moçambique e sua baia, salvo engano, é a terceira maior do mundo.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Notícias Africanas 05 (Colcha de Retalhos)
Feliz 01 de junho!
Sim, aqui hoje se comemora o Dia da Criança!
Eu não sabia, até agora, que essa é a data oficial da ONU para o Dia Mundial da Criança! Uma pena que o mundo não a celebre ao mesmo tempo, se unindo em uma luta conjunta por um mundo mais digno e justo para elas e, conseqüentemente, para tod@s nós!
Por aqui tivemos festa em praça pública, organizada por uma moça que admiro muito chamada Nina Yengo. Ela é minha companheira de trabalho e desde que a conheci seu principal tema são as crianças, principalmente as que vivem na rua. Ela queria que ao menos uma vez as crianças pudessem comemorar o dia a brincar, com uma refeição e uma vestimenta. Nina colocou familiares e amigos loucos com seu empenho, mas cumpriu seu objetivo! Sábado e domingo foram dias de festa!
As crianças aqui brincam e dançam muito, e não só em dia de festa! Muita brincadeira de roda, corda, dança e Cia. Nas escolas ainda se brinca pra valer, diferente do que acontece no Brasil. Eu aos 12 anos, mesmo morando no interior do Brasil, só brincava de roda e corda na rua, não na escola. Aqui sim! Então imaginem o tanto de músicas diferentes que acompanham essas brincadeiras! Dezenas e mais dezenas! Algumas soam conhecidas, provavelmente devido ao colonizador em comum, o português. Outras músicas são completa novidade, quer pela letra, quer pelo idioma. Uma verdadeira riqueza!
E já que eu falei de música da cultura popular infantil, vamos a Marrabenta. Marrabenta é um ritmo local muito popular e querido. Segundo eles não existe festa que não toque marrabenta. O jeito de dançar é primo de nosso funck carioca e, assim como ele, dependendo dos bailarinos a dança passa de sensual para vulgar... Bem, mas seja como for, a música é tocada até em festa da de casamento de noivos da Igreja Assembléia de Deus. Quem me contou esse fato foi um amigo brasileiro assembleiano, que veio trabalhar aqui e ao comparecer ao casamento de um colega de sua igreja se surpreendeu com o som e, mais ainda, com a presença da dança na festa do casamento.
Segundo uma filmagem de 1970, que retrata o surgimento da marrabenta ,tudo começou com uma moça que não conseguia um namorado. Ela foi a um curandeiro que diagnosticou que o problema estava em suas pernas, a curou e solicitou que ela dançasse (algo como o “levanta-te e anda” de Jesus). Ela se levantou, dançou mexendo as pernas que antes estavam doentes e, dançando, conseguiu a atenção dos rapazes.
Já mais atualmente, na onda de valorização do país e da cultura Moçambicana, o Mc Roger gravou uma música de muito sucesso, cuja letra começa assim: “Mc Roger na área, que havia de ser, para valorizar o que é nosso! A marrabenta está de boa saúde e recomenda-se!”. A música segue dizendo que “A marrabenta representa o que é nosso” e que o ritmo tem que ser ensinado para as crianças para que elas aprendam a gostar do que é daqui e tenham boa auto-estima!
Os dois vídeos citados acima foram postados aqui no blog. Assim os mais interessados podem fazer um paralelo da batida atual, em relação a filmagem de 1970. Também podem conferir no clipe do Mc os adultos dançando de forma mais sensual e as crianças dançando de forma mais tradicional, vestidas nas também tradicionais capulanas.
E para terminar a colcha de retalhos, vamos às capulanas! Capulanas são tecidos tradicionais aqui de Moçambique. Medem em torno de 1m por 1,50m, são muito coloridos e servem para uma variedade imensa de coisas. A forma mais popular de uso in natura é amarrado na cintura como saia, amarrado no tronco para carregar os bebês e jogado nos ombros como xale em dias de frio. Mas, fora isso, também são confeccionadas camisas masculinas, vestidos para festas, toalhas de mesa, cortinas para janelas e mais o que a imaginação mandar. Tanto que esses dias estávamos a imaginar como seria ir a uma festa vestid@ de capulana e ao entrar no lugar ver que a estampa de sua roupa é a mesma das toalhas de mesa! Bem, isso aqui não deve ser o fim-do-mundo! Já para a gente...
Ah, e a última que fique sabendo é que em um funeral a mulher sempre tem que ir vestida de capulana. Caso contrário, ela se sente nua, deslocada, como que se não estivesse verdadeiramente respeitando aquele momento de morte! Fiquei a construir a cena em minha cabeça, dezenas de mulheres lindamente vestidas em suas capulanas coloridas, a andar no cortejo... Talvez a cantar, talvez a bater palmas... Só sei que me deu uma vontade danada de assistir um funeral. Sei que é uma vontade muito estranha, mas a curiosidade fala mais alto! Quem sabe até ir embora, ainda que não deseje a morte de ninguém, eu não tenha oportunidade de assistir a algum, de prefêrencia de um completo estranho! E se isso acontecer, claro que vou dividir com vocês!
Beijos ao som da marrabenta!
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domingo, 3 de maio de 2009
Notícias Africanas 04

Hoje vou contar um pouco sobre Maputo e Nelspruit! Isso porque na sexta-feira de tardezinha uma colega ligou e disse: “-Vamos amanhã pra Nelspuit?”. E foi isso que aconteceu no sábado!
(Ah, e por falar em direção, aqui o volante do carro fica do lado direito! Os carros são muito baratos, vem do Japão e, assim, quase todos têm cambio automático! O sentido do tráfego também é ao contrário! Custou muito aprender para onde olhar quando eu queria atravessar a rua! Eu costumo até fazer uma brincadeira “-Sabe o que é pior do que os carros andando em sentido contrário? Pior é não ter carro na rua e daí nem saber de que lado vem o perigo!” Na verdade nem é piada! Já aconteceu da rua estar totalmente vazia, eu não atravessar e esperar algum carro passar!! Assim eu sabia pra onde olhar durante o resto do percurso!!)
“Veja você, arco-íris já mudou de cor
Essas feridas da vida Margarida
Para ouvir a música acima, tem um bom som (mas não tem imagens):
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Notícias Africanas 03 (ou "O Velho Leslão")

A escolha pelo 07 de abril é em homenagem a Josina Machel (1946-1971) (em solteira, Josina Muthemba) que na juventude fugiu de Moçambique para lutar pela independência do seu país. Em 1969, Josina casou-se com o primeiro presidente eleito, com quem teve um filho. Com a independência de Moçambique, o dia de sua morte foi consagrado como o Dia da Mulher Moçambicana. Na luta pela libertação de Moçambique desempenhou um papel muito importante. É considerada uma heroína em Moçambique.
Mas voltemos ao hoje! Uma coisa interessante que a chamada “mulher moçambicana” faz em seu cotidiano, igualzinho nossos indígenas, é carregar a criança amarrada ao corpo. Na frente ou atrás... E então me lembrei de que quando eu era adolescente uma colega deu a luz a um bebezinho prematuro. Ela então participou do projeto “inovador”, chamado “mãe canguru”. O projeto consistia em que ela levasse amarrada junto a si o seu bebê, substituindo assim muito dos cuidados hospitalares, fazendo o bebê se desenvolver melhor...
Já agora nos anos dois mil e algo vejo um debate do quanto hoje em dia não “sabemos mais”, e sim trocamos um conhecimento por outro... Sabemos muito sobre computadores, celular, blábláblá, mas se nos perdermos em uma mata não saberemos qual planta não tem veneno pra comer... onde tem água... Olhando as mulheres pelas ruas da cidade penso na mãe canguru... O tal projeto de minha adolescência que reinventava a roda, por um conhecimento desaprendido...
Outra coisa que faz tempo queria dizer é sobre o racismo! Teve uma campanha no Brasil que perguntava as pessoas: “Onde você guarda seu racismo?”. Vamos a isso! Um dia entrei em uma sala de reuniões de um serviço de saúde e todas (todas!) as pessoas eram negras. Claro que nascida e criada no Brasil isso não passou despercebido aos meus olhos! De repente ativista, médica, socióloga, psicóloga, eticeteróloga eram negras! Não sei nomear a sensação! Claro que eu já tinha refletido não ter tido NENHUM professor negro até minha pós-graduação, e não ter NENHUM colega de trabalho psicólogo negro até 2007... Mas essa sensação corporal, mental, emocional (ancestral?) que senti é indescritível!
Penso agora em um homem, negro, do sertão da Bahia, analfabeto, lavrador aposentado com um salário mínimo, com ascendência africana de algum país que não se sabe o nome. Saiu de sua terra pra tentar a vida no “sul maravilha” e nunca mais voltou! Ele, há 25 anos, sempre ia de carroça pra cidadezinha perto do sítio onde morava. Ele ia buscar “lavagem” nas casas da cidade pra alimentar os porcos. Às vezes levava sua netinha com ele. E ela se sentia toda feliz e importante por participar do trabalho do avô: em cima da carroça pela estrada; se equilibrando pra não cair ao balanço do cavalo; indo de porta em porta abastecer os tambores que levavam. Nessas oportunidades, quando o trabalho acabava, antes de voltarem para o sítio o avô parava em uma mercearia para menina tomar uma “sodinha” e escolher um doce na vitrine. Esse dia sempre era uma festa em seu coraçãozinho! Sempre era um doce-de-abóbora de coração que ela escolhia. E sempre, Sempre, SEMPRE!!!, alguém perguntava “_Como um homem ‘preto feio’ desses pode ser avô de uma menininha tão linda?”. O avô sorria sem jeito, fingindo não se importar com a brincadeira. A menininha tentava também esconder a tristeza por terem dito que ele não era seu avô. Por terem dito que era feio. Acho que o coraçãozinho da menininha chorava baixinho, como um doce-de-abóbora derretendo nas mãos: devagarzinho. O avô se chamava Antônio de Assis Leslão.
Nunca vi meu avô dizer que é negro com tranqüilidade. Quando ouvi algo, foi mais como um preto-encabulado. Acho meu avô nunca foi atendido por nenhum médico negro. Acho que ele talvez não se lembre dessa história. Acho que é por isso que uso o Leslão. Leslão é minha escolha porque não é de “preto feio”. É de negro lindo. Que eu amo!
Sem mais por agora, fico por aqui!
segunda-feira, 2 de março de 2009
Notícias Africanas 02

Bem, visitei um serviço de saúde. É o Hospital Central... na verdade não foi bem o hospital que visitei, conheci em um dia o serviço chamado SAAJ- Serviço de Atenção para Adolescentes e Jovens, que tem como foco a AIDS (SIDA). A prevalência (não sei se essa é a palavra certinha) de HIV nesta população (de 14 a 25 anos) é algo em torno de 30%.
Infelizmente aqui a o serviço de testagem e aconselhamento ainda está muito aquém do ideal, porque há poucas pessoas habilitadas para fazer os testes, o que leva a muitos resultados errados. E se o teste (que é uma coisa bem técnica) é assim, imaginem o aconselhamento? Agora é que vão começar um trabalho mais especifico com prevenção, durante o aconselhamento pré e pós... Agora é que estão começando a valorizar o que eles chamam de “permanecer negativo”.
Em outro dia eu voltei neste lugar e visitei o serviço que chamam de IVG- Interrupção Voluntária da Gravidez. Aqui a lesgislação é muito antiga e o aborto ainda é crime, porém existem portarias atuais que permitem o procedimento, que é gratuito e feito em alguns centros de saúde do país. Usam de técnica medicamentosa e também de aspiração manual. O tempo em que a moça/mulher espera para o procedimento é curto. Não tenho certeza, mas não deve ser mais que 1 ou 2 semanas (depois confirmo isso e passo pra vocês). Pode ser feito a partir do 10 anos de idade (*!!). Existe aconselhamento pré e pós aborto e contatos em 1 mês; 6 meses e; 1 ano. Aqui falar de aborto não é simples, todavia é menos complicado que no Brasil. Penso porque (“graças a deus”- ou a deusa) a moral cristã aqui tem menos influência que em nossa latinoamérica.
Para fazer prevenção acerca dos dois temas acima, aqui eles usam pessoas jovens. Eles chamam de “ativistas”, que não tem salário, mas recebem uma ajuda de custo. Esses ativistas foram formados por um curso e agora recorrem a cidade abordando essas temáticas com outros jovens. Uma coisa que chama a atenção é que aqui as meninas preferem conversar esses temas com os meninos, e vice-versa! Isso porque como aí, temos uma cultura bem machista, mas que opera um pouco diferente, fazendo que as pessoas não confiem muito nas pessoas de seu mesmo sexo, como se fossem sempre competidores entre si.
Eu estou fazendo um estágio voluntário no serviço de IVG. Afinal, quando no Brasil eu ia ter oportunidade de conhecer um serviço desses? E se é pra ser voluntária, que seja em algo que eu possa aprender muito.
No país este é um momento em que as vagas são para as pessoas de Moçambique. Isso porque aqui, existem muitos órgãos internacionais, logo, muitos estrangeiros. Então agora tem um a portaria que regula a proporção estrangeiro/moçambicano nesses órgãos. E, a cota pra estrangeiros varia de apenas 5% a 10%.
Sou extremamente a favor da proteção aos profissionais locais, talvez eu fizesse o mesmo se estivesse no lugar da pessoa que pensou essa lei. Porém também é um dado de realidade que Moçambique ainda está formando seus profissionais locais, ou seja, será muito difícil qualificar os serviços porque há uma falta real de profissionais (vide inicio do email onde eu falei da testagem/aconselhamento). Em todo o país (que não é pequeno) existem apenas 750 médicos, por exemplo. Quando eu cheguei ouvi falar que eram 400, mas depois uma amiga disse que são 750.
Bem, queridos, por hora é isso.
A foto que envio hoje quem a tirou foi uma moça americana que passou por aqui 3 meses no ano de 2008.
Nada do que eu disse aqui são dados “oficiais”! Apenas estou compartilhando o que aprendi de ouvido por aqui!
Beijo grande neste dia de sol e pouco calor (só 30°C)
(*) Vocês estão acompanhando o caso da garota de 9 anos (1,33 m e 36kg), pernambucana, que foi estuprada e engravidou de gêmeos? Ela teve o direito, assegurado pela lei brasileira, de fazer o aborto pq a gravidez era advinda de um estupro e pq ela corria risco de vida! Agora, vocês acreditam que a "santa madre igreja" católica tá processando e excomungando a mãe da menininha e a equipe de saúde que cumpriu o seu papel? Cada vez fico mais passada com esse tipo de atitude!! Ah! O padrasto e estuprador da criança ninguém excomunga!! SOCORRO! Páre o mundo que quero descer!! http://www.apostasiacolectiva.org/
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Noticias Africanas 01

Muita gente me pede notícias daqui de Moçambique... na verdade não tenho nenhuma análise mais apurada pra fazer... rsrsr
Ainda não vivi aqui quase nada... hoje faz só 7 dias... contando com a adaptação ao fuso, talvez seja meu terceiro ou quarto dia "inteira"... Até porque terça foi feriado, segunda emenda... etc...
Bem, pra começar o calor é monstruoso. Com 30ºC tá fresco! Aqui a média é entre 37 e 40 graus. É de ferver... de enlouquecer. Ninguém transpira como nós, os estrangeiros! Estão acostumados a temperatura...
Ainda não fui pra parte da cidade onde vivem os moçambicanos "de fato", o povo pé no chão!!
É bem longe e não tenho carro!
A pergunta é: poderia ir de transporte público? A resposta é NÃO! Porque isso aqui é muito complicado!
E alguns amigos que já se aventuraram em se locomover cotidianamente nos chamados "chapas" (vans) ouvem as pessoas dizendo que é um absurdo os estrangeiros usarem o transporte público, que já é pouco e de má qualidade mesmo pros moçambicanos. E eles tem total razão! Não é egoísmo, é falta de recurso MESMO!!
Eu vivo em uma "ilha", por assim dizer... é uma avenida que moram muuuuitos estrangeiros! Então vejo muitas gente diferente...
Ahhhhh, aqui os supermercados são sempre de muçulmanos e cia!! E hoje, por exemplo, fui as 12h a um e está fechado porque foram pra "igreja"! Diz que de sexta abre as 15h! Mas todos os dias TUDO fecha das 12h30 às 14h30 (exceto os restaurantes). Penso que talvez seja porque é a hora mais quente do dia, e aí trabalhar nesta horá é dificil...
O canal que passa aqui, do Brasil, é a Record! Por quê? Devido Igreja Universal do Reino de Deus (tem aqui, é claaaaaaaro)!! De resto, muito canal indiano, muçulmanos, e uma grande mistura, que não tem tradução!!
Os humores dos moçambicanos até o momento me parecem extremos! Ou as pessoas são muito simpáticas, ou muito mal humoradas, ou muito alegres, ou muito indiferentes. Sei lá... estranho!
Também é difícil se aproximar um pouco mais... acho que quem me conhece mais de perto sabe o quanto está sendo difícil ser considerada A branca, A elite, A estrangeira, A poderosa, A rica, A diferente, A não pertencente a este lugar...
Os "patrões" aqui gritam muito com seus empregados domésticos. Existe uma relação de poder muito extrema! Não sei, é muito ruim de presenciar! Perguntando para a moça que veio fazer faxina aqui em casa, ela me disse que os portugueses são muito racistas (acho que ainda é resquício da colonização) e tratam muito mal seus empregados.
Os vendedores na rua chamam as mulheres de "mamá", e seguem a gente oferecendo seus produtos artesanais por um quarteirão inteiro. São coisas lindas! Mas se não preciso de um quadro na parede, então é quase uma ofensa dizer que não vou comprar... Sou a estrangeira, então supostamente tenho grana e TENHO que ajudar DESTA FORMA os locais!
A primeira manhã que fui buscar pães, voltei com a metade, porque na rua me pediram os pães... E como negar pão? Ai que dificil!
Tentarei enviar fotos que reproduzam um pouquinho do que é aqui...
Mas é complicado tirar foto dos locais, afinal não os conheço. Então não sei o quanto vou conseguir passar pra vcs as coisas que vejo...
Quero um dia tirar uma foto de um "chapa" lotaaaaado! É incrível a quantidade de gente dentro de uma van (e um pouco fora dela também)!!!
A primeira foto é a fila da alfaiataria pra fazer uniforme da escola (legal que é bem barato! todos podem ter acesso)! A parte ruim é que TODAS as escolas (públicas e privadas) enviam os alunos pra fazer o uniforme em um ÚNICO lugar!!! E não é por falta alfaiataria!! rsrsrs É o monopólio do uniforme mesmo!!!



