domingo, 24 de outubro de 2010

Ela não é Severino (parte 1)

Há aproximadamente um mês, minha amiga teve uma infecção nas pernas. Nada de diferente do que já teve incontáveis vezes, porém desta vez não pode se automedicar. As automedicações anteriores fizeram com que seu nível de colesterol estivesse no limite.

Entendo perfeitamente esse receio de ir ao médico e recorrer ao balcão da farmácia e/ou conselho das/dos amigos. Por vezes os “doutores”, e outr@s profissionais da saúde que se julgam acima do bem e do mal, só fazem cuidar de nosso corpo e estraçalhar com nossa dignidade. Por sorte, convivemos com muit@s que fogem a essa “regra”.

Mas voltemos ao causo. Infecção instalada, automedicação proibida, o problema só fez aumentar, apesar das tentativas dos querid@s médic@s que trabalham conosco. Nada passava a febre, o inchaço, a vermelhidão e o alastramento do problema. O que havia começado nas canelas não só piorava como descia para os tornozelos e subia para as coxas.

Naquele dia ela não foi trabalhar. Ligou para dizer que usaria seu banco de horas crédito para ficar em casa mais uns dois dias. A licença saúde tinha acabado. Decisão descabida. Avisei a diretoria e bolamos um plano: as horas não seriam aceitas, ela apenas poderia se ausentar com outro atestado. Planos maléficos para o bem!

Quando eu a encontrei para acompanhá-la até o Hospital Emílio Ribas, tive que controlar para não rir de sua ingenuidade. Trazia consigo apenas com uma pequena bolsa com documentos pessoais e históricos do tratamento atual. Nem sequer passava por sua cabeça que ficaria os próximos dias internada, tentando vencer a infecção.

Chegando ao hospital de destino, tínhamos que apresentar o RG para entrar no recinto. Ela como paciente e eu como acompanhante recebemos um único número, indicativo do Pronto-Socorro.

Entramos no pátio, seguimos até o prédio correspondente e lá, novamente, tivemos que apresentar os documentos. E aí, a primeira manifestação de receio dela:

_ Quando for minha vez de passar na consulta me chamam pelo nome?

_ Não, respondeu a funcionária, chamam pelo número.

Sentadas, aguardamos pacientemente as 2 horas de espera para a triagem. Ela com muita dor. Eu, com muita preocupação.

Número no painel , era nossa vez. Entramos na sala com a enfermeira, após olhar minha amiga e o nome da ficha, que perguntou como ela gostaria de ser chamada. “Zaila”, foi a resposta. Assim, a enfermeira anotou ZAILA, em azul bem grande, ao lado do que já estava lá.

A consulta seguiu.

Enfermeira: _ Você tem HIV?

Zaila: _ Não.

Enf: _ Quando o problema das pernas começou?

Zá: _ Desta vez, faz mais de uma semana e não melhora.

Enf: _ Teve febre?

Zá: _ Todos os dias.

Enf: _ Quando foi seu último exame de CD4?

Zá: _ Hã?

Eu: _ Ela já disse que não tem HIV.

Enf (visivelmente constrangida): _ Desculpe, não estou acostumada. Atendo em outro setor do hospital.

Voltamos a sala de espera.

_ ZAILA!, gritou a médica.

E a consulta transcorreu muito bem. Falamos da doença e da vida. Todas nós trabalhamos com pessoas em comum. O SUS é assim. Mas, como eu já imaginava, internação foi a conduta.

Fomos encaminhadas para os próximos procedimentos. Um soro, pra começar.

Zaila foi sentar em uma das poltronas da sala de medicação. Eu esperava na porta. O técnico de enfermagem, vendo a nova paciente recém-chegada, procurou a ficha no balcão.

Tec Enf (do balcão para o outro lado da sala): _ Severino é você?

Zaila não responde. Silenciosamente abaixa cabeça, enquanto os demais pacientes da sala de medicação voltaram-se para analisar milimetricamente sua pessoa.

Tec Enf (elevando a voz, ainda no balcão): _Severino é você ou não é?

Zaila (sentada, com mão no rosto e cotovelo apoiando nos joelhos): _ É.

O técnico de enfermagem, pega a ficha, vem à porta e me dirige a palavra:

_ Ele é o Severino mesmo?

Eu aponto para o nome escrito à caneta na ficha:

_ Ela é Zaila.

Tec Enf: _ Mas é Severino?

Eu (apontando alternadamente para os dois nomes no papel): _ Está escrito Zaila e se está escrito aqui, é pra ser chamada assim.

Neste momento um médico mais velho entra no corredor. Não sei bem quem era a profissional ao lado dele, mas ela me puxa da porta onde eu ainda estava e explica.

Profissional (apresentando a minha pessoa ao médico): _ Ela é a assistente social que está com o paciente.

Médico mais velho: _ Onde eu o interno?

Eu (encarnando a AS que não sou): _ Interne-a na ala feminina. Afinal, creio que nenhuma Zaila seja compatível com um quarto masculino.

Médico: _ Mas é Severino!

Eu: _ A Juíza diz que é Zaila, sexo feminino. Então, o lugar dela é na ala feminina!

Médico e outra profissional se foram. E fiquei me perguntando o porquê de eu ter que ser uma assistente social. As Zailas que nasceram Severinos não podem ter amigas, colegas, irmãs, primas? Todas as Zailas tem que andar com uma assistente social a tiracolo? Ela não podem ser simplesmente tratadas com respeito e dignidade, independente de sua companhia?

(continua no próximo post)

Fonte da imagem: WYZ

7 comentários:

ceylorbr disse...

É, infelizmente não são todos os profissionais preparados para atender Zailas... Mesmo com o nome escrito com letras garrafais...Isso precisa ser revisto. Em uma escola que trabalhei tinha uma Jeniffer (com 2 efes mesmo), que apenas 1 professor insistia de chama-la de... bem, isso não importa! O que importa é que a Jeniffer insistiu em ser chanada pelo nome que não estava no registro (mas que estava na lista, pois eu coloquei lá após falar com a diretora que entendeu a situação e autorizou colocar o nome Jeniffer antes do nome de registro). O clima na classe esquentou pra cima da Jem, que chorando foi a secretaria. Juntos fomos a diretoria. Aí o clima esquentou pro professor homofóbico que disse que era um absurdo! Eu disse que absurdo era ele, uma pessoa esclarecida, se preocupar com um detalhe e esquecer que sua função era ensinar cidadania e que a escola toda não tinha problemas com a Jeniffer!(Claro que não falei num tom calmo, mas sem elevar a voz.) Então ele me disse: Você é a favor dessa viadagem? E eu respondi: Sim, eu e meu namorado somos! Problemas? -Ele deixou as aulas da classe e a Jeniffer se formou! Linda! Isso foi em Rio Claro em 1997. Sempre tem gente desinformada ou ignorante...

D@lv@ Ch@ves disse...

Só quem passa pelo problema pode dimensioná-lo... daí dá até para entender a escolha inicial em abonar a falta com banco e horas e não com um atestado...

Janaína Leslão disse...

Nay e Dalva: estou com vocês! Complicado isso de ninguém chamar a gente pelo nome pelo qual nos reconhecemos. Que diferença isso faz na vida da outra pessoa? É muito sadismo, pois impede o acesso a saúde, educação e por aí vai. beijos.

Irina disse...

Jana, infelizmente isso faz parte do cotidiano de nossas Zailas e pior, em serviços que deveriam estar sensíveis já, como o Emilio Ribas, CRT Aids e outros, imagine isso nas santas casas e coisas do tipo? é lamentável que o profissional de saúde seja tão genitáliocentrado!

Sonia disse...

Bom, pela minha presença ja saverão minha identificação com Zaila e com todos os que lutam por um sonho... pela idéia de ter-me a tira-colo (sou assistente social...rsrs) e de dessa blogueira guerreira... lindo!!!

Mr Marcinho disse...

'Desumanas relações' tem pessoas que se prestam a esse papel de afronte justamente,num momento crítico de dor, de mal estar e fragilidade para mostrar o que há mais perverso em termos de tortura e e subjugação! É total descaso! Tem horas que me dá revolta e me da um dó de quem é 'podre' assim (#falei)

mfernanda disse...

Assim como Zaila, tantas outras pessoas são tratadas dessa mesma forma. Frieza, falta de atenção, humanidade, respeito, etc.. são caracteristicas que encontramos com facilidade por onde andamos, principalmente nas instituiçoes que deveriam ter esses atributos em abundancia para qualquer um.