terça-feira, 9 de julho de 2013

Cura Gay: Psicologia e Homossexualidade

Semana passada, estive na TV Gazeta, para falar sobre o "Projeto da Cura Gay".

O que é, afinal, esse projeto?
É um projeto que deseja sustar duas partes da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 01/99.

São elas:
Artigo 3º- Parágrafo Único: “Os(As) psicólogos(as) não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”
Artigo 4º- “Os(as) psicólogos(as) não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos (...) de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos(às) homossexuais como portadores(as) de qualquer desordem psíquica.”

Todavia xs deputadxs não tem poder de legislar sobre a profissão de psicólogx (e sobre nenhuma profissão). Não é papel dxs parlamentares dizerem o que é ético ou não na Psicologia, nem na Medicina, nem no Serviço Social, nem na Engenharia etc. Quem faz isso são os Conselhos de Classe, criados pelo próprio legislativo.
 
Também com a anulação das duas referidas partes da Resolução CFP nº01/99, o texto perde totalmente seu sentido e finalidade.

IMPORTANTÍSSIMO:
1) Há quem queira enganar a todxs dizendo que o projeto não é sobre "Cura gay". Bem, se não pretendem fazer isso, não há a necessidade de se anular os dois artigos descritos acima, correto? O texto ficaria como está.

2) A resolução não impede que psicólogxs atendam a população LGBT e acolha seu sofrimento. Todavia concluir que o sofrimento advém da homossexualidade, intrinsicamente, já é se despir dos conhecimentos da psicologia e operar no senso comum, envergonhando a ciência e profissão. #ficaadica

Aqui, a entrevista:





Leia AQUI o Parecer do Conselho Federal de Psicologia, sobre as tentativas de se interferir Resolução.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Notícias Africanas 13 (de Mz para Br)

Prezada Daniela,

Essa é a segunda carta/mensagem que te escrevo. A primeira foi motivada pelo aniversário de o Canto da Cidade, em um dois de fevereiro, onde fiz referencia as músicas que me acompanharam durante tantas fases de minha vida, moradas, amores, mares e cia... Aquela, diferente desta, foi uma mensagem mais melodiosa, pois melodia é sua arte, em som e movimento.

Hoje, aqui do outro lado do mundo (em relação ao Brasil) volto a te escrever. Escrita um pouco mais dura, mas quero faze-la porque, inusitadamente usei dois vídeos* seus em uma aula de psicologia. Explico: estou pontualmente de volta a Moçambique, cidade em que vivi o ano de 2009, para dar um curso sobre “sexualidade humana” para psicólogos da capital, Maputo. O convite foi feito pela Lambda, ong em que fui voluntária na outra visita por cá.

Ocorre que no continente Africano, temos em torno de 5 (cinco) países que pune com pena de morte as pessoas que se relacionam afetiva/sexualmente com outras do mesmo sexo. Então, embora esse não seja o caso de Moçambique, o foco da formação visava justamente diminuir o preconceito e dar embasamento teórico aos profissionais psicólogos para trabalharem junto as minorias sexuais de modo a promover sua autonomia e cidadania, diminuindo o sofrimento relacionado a não aceitação social e preconceitos.

E, para minha surpresa (?), uma das psicólogas perguntou de ti, quase como um “estudo de caso”. Sinalizei que poderíamos assistir sua primeira entrevista pós publicização do relacionamento com Malu, não como um caso a ser analisado, mas como um posicionamento de dignidade e exercício de cidadania, em um momento tão adverso da história, onde o fundamentalismo moral e religioso, anda recrudescendo. E, o que me encantou e frisei a todos, foi principalmente o fato de você falar durante mais de 10 minutos e em nenhum momento usar um rótulo para definir sua relação. Antes de classificação rotulantes temos o amor entre duas pessoas que se respeitam, que se querem bem e que tem a dignidade e ousadia de viver como todos as demais pessoas e demais amores existentes, ditos da “maioria”.

Enfim, pensei em relatar isso porque você, antes de usar as mídias e as informações pessoais como plataformas da fama, posiciona-se trabalhando na contração de fofocas, mal-ditos e exposições desnecessárias. Foi um ato público, e por isso político, que enche de frescor e esperança a pessoas como eu, como você e como muitos, que acreditam em um mundo melhor, com uma cultura de paz para todas as pessoas.

Ainda que seja completamente desnecessário, pois acredito que seu intuito em nada tem a ver com essa expressão, digo: Obrigada!

(*) Cito dois vídeos porque, além do da entrevista, assistimos sua apresentação de Ylê, Pérola Negra”, uma vez que em seu trabalho tanto faz e fez pela música miscigenada, valorizando a beleza e o ritmo afro em nosso Brasil. 

Conheça a Lambdahttp://www.lambdamoz.org/

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Carta para Daniela Mercury

Resolvi escrever algo sobre esse lado musical de minha vida. Lado musical em que Daniela está, acompanhada de Gil, Chico, Caetano, Verônica, Joyce e Zélia... Amo música, embora não tenha nenhum talento musical. Concordo com Nietsche que disse que “Sem música a vida seria um erro”.

Sou psicóloga. Também feminista , ativista, e acredito em um mundo melhor para todas e todos. Com justiça social, menor desigualdade entre os povos... um mundo onde uma pessoa valha tanto quanto outra pessoa, independente de origem, raça, sexo, credo, classe social, deficiências, idade...

Se em minha vida de profissional/militante sou conhecida pelas minhas bandeiras, já o gosto pela música apenas os mais queridos compartilham...
O gosto por música seria o meu “lado B”, que pode ser o menos publico, mas me compõe e é tão importante quanto o lado que todos conhecem.

Janaína Leslão 
*************
"Meus olhos arregalados não piscam pra qualquer um, nem fecham pra qualquer medo (Marta Medeiros)

O (en)Canto da (C)idade

Não, não sou tiete... Mas sou fã, e há tempos perdi a vergonha de, entre tantas outras coisas, dizer que gosto de Daniela Mercury. O Brasil (ou o sul/sudeste?) é assim: o que tem de generosidade também tem de preconceito, e a música baiana, da baiana, causa nariz-torto a muitos que não encontram nela seu espelho, como Narciso, cantado por Caetano.

Aos 15, morava eu no “interior-do-interior” o Paraná. Uma vez a cada um ou dois anos, meus pais reuniam os 3 filhos em um fusca bordô e viajávamos 606km até a praia. Houve um verão que a trilha sonora da viagem foi ao timbre de Daniela. No rádio do fusca, tocando em fita K7, lá íamos nós, felizes,  embalados pelo Canto da Cidade. Foi a primeira trilha, entre tantas com essa voz.

Correu o tempo, e aos 18 morava longe de casa, para estudar psicologia. Mudei de estado, e em meio a tantas novas experiências, o primeiro grande show que assisti foi de Daniela. Despretensiosamente caminhava pela feira agropecuária de Assis com amigos recém-feitos, quando avistei o palco iluminando a noite. Como cantora, a baiana também surpreendia como bailarina. Somava-se perfeitamente aos demais profissionais em seu palco. Eram poesia para os olhos. Feijão com arroz, o negro e o branco, o nordeste no sudeste, o sorriso em minha boca e a luz nos olhos meus.

Seguindo os anos, aos 22, com os primeiro período de estudos cumpridos. E cantarolando “se oriente rapaz, onde vai ser seu curso de pós-graduação”, pensando em Gil, não dava pra suspender a viagem. Queria ainda dar a volta no mundo, para vê-lo girar... 
Profissionalmente, tudo daria certo, porque “tinha” que dar, custasse o que custasse.
Sentimentalmente, havia muitas dúvidas... o tal "certo" era absolutamente intangível...

Seguia, como mutante, no fundo sempre sozinha. Romântica me perguntava se conseguiria a alegria dar a mão a alguém (ao estilo Clarice). Para a composição de cores e sentimentos de meu coração miscigenado, o alívio era rascunhar versos, como estes:

Vi. Vejas!
Tens cabelos negros.

Negro óleo
Precioso
Negra noite
Sedutora
Negro gato
Traiçoeiro
Negra cor
Enigmática
Negro pássaro
Migrador
Negra magia
Feiticeira.

E também
Negros olhos
Que negam
Ver os meus
Verdes
De esperança.”
              (Toda Cor)

Voltando as (c)idades que se seguiram, um amor que “Pra toda vida” chegou à minha, na voz do Barão Vermelho, como o tal amor gostava. Manaus, foi o cenário desta chegada. Inicialmente resisti, porque meu plano era deixar ela pensar o que quisesse mas, engano meu pensar que fosse brincadeira,  aconteceu de ser assim dessa maneira.  E os planos do destino foram gravados em um CD que dei ao amor de presente, tempos depois, já estando em cidade e idade diferentes: São Paulo, aos 25 anos.

A vida seguiu seu curso. Não pulei do alto da torre por ninguém, mas fui ver uma espécie de balé mulato do outro lado do mundo. Moçambique nos esperava, e o som de Daniela que tocava em meu fone de ouvido dizia: “espere amor, que estou chegando, depois do inverno, a vida em cores”.

Nesta temporada em Moçambique pude conhecer outras cores, flores, sons, movimentos. Movimentos inclusive que reconheci no show teletransmitido, direto do Farol da Barra, no dia 01 de janeiro de 2013. O som e dança que (ou)vi em Maputo foi a marrabenta. Inspirações pra sua performance sempre na mistura desses continentes, pro índio-afro-brasileiro que é nosso país.

Hoje, enquanto escrevo para você, estou ouvindo “Cinco Meninos”, que muito me emociona. É madrugada e espero minha amada voltar, pois foi jogar flores no mar, na festa de Yemanjá.

Espero que um dia as mulheres deste país e, quiçá, de todo o mundo, possam ter sua força, independência, sua fome de vida e seu olhar para o outro, enxergando-se como gente que precisa ser cuidada e amada, independente de raça, sexo ou credo.

Muitas vidas se dão em 20 anos, e parte da minha se deu ao som desta arte que por esses dias aniversaria.


Abraços, com muita admiração, por tudo o que és e fazes.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Ano Novo?

Querida Mafalda, Creio que mudamos de ano para continuarmos na ilusão de que "o próximo ano pode ser melhor". Todavia a história nos mostra que passam-se os anos e há muito pouco (ou quase nada) de novo sob o sol. As desigualdades, fome, guerra, opressão, idas a Marte e desrespeito aos povos originários terrestres se perpetuam. O umbigo continua a ser rei. E dinheiro, valor maior para todxs...

domingo, 9 de setembro de 2012

Marcha das Vadias - Baixada Santista (TEXTO)




 






Publicando aqui o texto.
Ele fala de tudo um pouco:
Do histórico...
Do porquê deste nome...
De feminismo...
De machismo...
De homofobia...
De otras cositas más...
 
1ª Marcha das Vadias -
Baixada Santista
  “Isso não é sobre sexo,
é sobre violência”.
 
A “Marcha das Vadias” (em inglês, Slutwalk) teve início em Toronto, no Canadá, em reação ao discurso de um policial que, em uma palestra sobre segurança na Faculdade de Direito Osgoode Hall Law School, disse que as mulheres deveriam evitar “se vestir como vagabundas” para que não fossem vítimas de violência sexual. A declaração gerou uma onda de revolta, que culminou na primeira Marcha das Vadias, ocorrida em Toronto em 24 de Janeiro de 2011. De lá, o movimento rapidamente se espalhou por todo o mundo, com Marchas em lugares tão diferentes entre si quanto Austrália e Índia. No Brasil, tudo começou com a Marcha das Vadias de São Paulo, também em 2011. Em 2012, várias cidades pelo Brasil inteiro também organizaram suas Marchas, e outras estão se organizando para marcharem. As cidades da Baixada Santista estão entre elas.

A ideia da série de manifestações carregar o nome “Marcha das Vadias” vem como referência ao discurso machista do policial e, através do título e dos questionamentos comuns a todas as versões da Marcha, é demonstrado que entendemos a violência sexual como algo do qual a vítima nunca é culpada, e alegar que uma mulher “provocou”, de alguma forma, a agressão da qual foi vítima, é não só irracional, como cruel.

A Marcha é um movimento apartidário que luta contra as agressões físicas, psicológicas, sociais e morais às quais mulheres e meninas são submetidas todos os dias.

Lutamos contra a ideia de que nossas autoestimas devam ser e estar orientadas à concepção de o quanto somos consideradas “desejáveis” para algo ou alguém. Tal concepção gera pressão para que nos enquadremos em um padrão de beleza massificador, excludente, racista e elitista, que contribui para o surgimento e exacerbação de distúrbios alimentares, o uso indiscriminado de produtos que prometem beleza e emagrecimento, e outras manifestações de vergonha e rejeição ao próprio corpo. Não somos todas brancas, loiras, magras, com seios grandes, cinturas finas, bundas grandes e sem um grama de gordura ou flacidez em nossos corpos. Somos mulheres, somos muitas e somos de todos os jeitos.

Lutamos contra um sistema que ensina que “homens de verdade” não veem as mulheres como suas companheiras, e sim como objetos sexuais. Lutamos contra um sistema que ensina que não se pode ser “homem” sem sentir atração sexual por mulheres, e que relega homens não-heterossexuais à categoria de “mulherzinha”, como se “ser mulher” fosse uma coisa negativa e se assemelhar em algo a características pré-definidas como femininas fosse algo ofensivo. Lutamos contra um sistema que, desde cedo, também pressiona meninos e homens a sufocarem suas emoções e a vigiarem o comportamento (próprio e alheio); reprimindo qualquer manifestação que não se enquadre em um conceito restrito e excludente de “masculinidade”.

Lutamos contra a mercantilização do corpo feminino, transformado em mero chamariz para vender produtos - de cerveja a desodorante. Lutamos contra mulheres usadas como decoração em programas de TV, feiras de venda de produtos, outdoors e similares. Lutamos contra uma cultura que trata mulheres como objetos, e nossos corpos como mercadoria, quando deveria nos enxergar como seres humanos, com opiniões, projetos de vida, sentimentos, desejos e direitos próprios.

Lutamos contra a violência sofrida pelas travestis e mulheres trans*, consideradas menos dignas de respeito e dignidade por expressarem sua identidade feminina, expomos também que a nossa luta engloba toda e qualquer descriminação por ordem de gênero, incluso a acometida aos homens trans*, que assim como as mulheres são julgados e considerados indignos de assumirem o gênero com o qual se identificam. Lutamos contra a violência institucional perpetrada pelo Estado e por profissionais da saúde que se outorgam o direito de decidir com base em noções machistas e excludentes o que é ser mulher e o que é ser homem “de verdade”, como se a “verdade” fosse uma entidade inquestionável.

Lutamos contra uma cultura que culpa as mulheres pelas violências que sofrem, e prega a violência ao feminino como algo natural, ao demonstrar misoginia na linguagem cotidiana (Desd'a mulher "vadia/puta/vagabunda/piranha/biscate", que ao ser verbalmente agredida, é tratada como ser sexual e tem por maior ofensa o que faz de seu próprio corpo, até o homem "filho da puta/corno/viado", que ou tem culpabilizadas as mulheres presentes em sua vida, novamente por conta da questão sexual - o problema não é ele, e sim a "mãe que deu pra vários" ou a "mulher que deu pra outro" - ou o fato de por alguma razão, se assemelhar em algo com uma mulher), ao tratar o estupro como piada em campanhas publicitárias e programas “humorísticos”, ou ao simplesmente pregar que a maneira como uma mulher se porta a designa o título de “estuprável”.

Queremos lembrar a todos e todas que, não importa o que uma mulher vista, como ela se comporte, com quantas pessoas faça sexo, qual é sua profissão ou orientação sexual: TODAS as mulheres, assim como todas as pessoas, têm direito a ter sua segurança e integridade física respeitadas. A culpa do estupro é do estuprador! A culpa da agressão é de quem bate e não de quem apanha!

POR QUE VADIA?

Nas palavras da Marcha das Vadias DF: “Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamosantes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES”


“Vadia” é um termo usado para ofender e menosprezar mulheres que ousam ter o controle da própria sexualidade, assim como são também chamados de “vadias” os homens não-heterossexuais, que ousam amar e viver de forma diferente da imposta pelo machismo corrente.

O termo também é usado para envergonhar estes homens e mulheres a respeito de como ou com quem fazem sexo, de como se vestem, como se maquiam, do quanto bebem, quais lugares frequentam, em quais horários estão nas ruas e quais companhias mantêm. A palavra “vadia” se vem sempre no feminino, para todas as pessoas, e serve não apenas para envergonhá-las como para assustá-las, já que ser uma “vadia”, na nossa sociedade, equivale a ser “estuprável”, a ter justificada qualquer violência contra si. Nós não temos medo de ser vadias, quando “ser vadia” representa sermos mulheres e homens, que enquanto donos de si, exigem o direito de sermos o que quisermos.

Recusamos as ofensas a nós endereçadas por ousarmos viver nossas vidas da forma como desejamos. Se ser livre é ser vadia, somos TODAS vadias!


CONVITE:

Convidamos você, militante ou interessado na causa, a se unir e auxiliar na organização, divulgação e participação da Marcha das Vadias da Baixada Santista, lembrando que o ato será APARTIDÁRIO e está marcado para 30 de setembro de 2012, às 13h na Praça da Independência em Santos – SP. Traga para nossa marcha as suas faixas me prol da defesa “das vadias”. E também seus amigos e amigas, seus filhos e filhas, seus pai, mãe, avó, tios e tias e, principalmente, sua vontade de transformar esse mundo em um lugar melhor para se viver.




segunda-feira, 11 de junho de 2012

Alê d'Ilê e a Música


Ouvindo Gil, tomei coragem para escrever sobre Alê d’Ilê. Compartilho a certeza de que o texto não será o suficiente para expressar tudo o que eu queria. Assumo o risco e, desde já, desculpo-me pelo pouco.

Diz a lenda que nosso personagem aprendeu a tocar violão por acaso. Menino franzino gostava mesmo era de jogar futebol. Mas um dia o tombo no campinho de terra fez seu peso cair sobre o magro braço. E o partiu. Tristeza para ele seu não correr atrás da bola. Restou o violão no período de recuperação. E o menino tomou gosto e cresceu na melodia e habilidade do instrumento. Sozinho se alegrou e aprendeu a arte que veio a dividir com tantos.

Alê d’Ilê hoje mora em Macapá- AP. Nascido em Porecatu- PR, fez o percurso inverso d’A Violeira, de Chico. A sina deste caprichoso e não nordestino, mais que ir pra um lugar, era fazer música e conviver com a língua francesa. Assim subiu o país, saindo de sua terra-sul, passando brevemente pelo centro-oeste, e finalmente se estabelecendo no norte. Mambembe, cigano...

 A cara amiga perdoou-lhe por não fazer uma visita quando veio ao sudeste. Nada de cartas ao portador. As notícias, no correio eletrônico chegaram, com canção anexada. Uma alegria foi sabê-lo musicando pelas bandas de lá. Outra alegria foi comprar seu CD em uma loja virtual e, ao visitar a terra-sul, receber uma versão autografada.

Faz tempo que não vejo Alê d’Ilê.  Mas o tempo em que estivemos na mesma cidade me acompanha, quer seja no sudeste daqui ou da África. Inclusive, uma peça de roupa que trouxe pra ele de Moçambique ainda está preguiçosamente guardada em meu armário. Talvez à espera de um endereço não eletrônico para ser enviada. Nem sei se o pedi. Aproveito e registro aqui a solicitação.

O que sei é que Alê vive vizinho de Dona Guiana, a francesa que o ajuda a treinar a língua que estudou em sua Faculdade de Letras. Francesa é caso antigo, que até já virou canção (1). Sei também que ele gravou em seu CD uma belíssima música instrumental chamada Justina (2), para uma outra Dona, essa muito mais importante do que a anteriormente citada. 

Às vezes, na viagem diária de volta pra casa, eu o ouço. Um dia, degustando o som me peguei chorando. Olhando pela janela do ônibus, a lua alta brilhava... Chorava porque  sabia que era a mesma que brilhava para as gentes lá de casa, as pessoas mais amadas, “a minha gente que me espera voltar” (3) com as notícias dessa “minha terra, mundo inteiro”.

No fim, a Estrada Companheira (4) contém um coração a mil que amadureceu, gestou e pariu letras e melodias que soam histórias tão pessoais e tão gerais. Contém um menino franzino e um músico; as escadarias de uma igreja e a fronteira de um país; as águas do rio Paranapanema e as do Araguari.

Gil, no aparelho de som, hoje cantava Palco, como em um show de 1997, em Bauru. E como os tempos são outros, escrevi este texto, que agora vira post para enviar Pela Internet.
  
Músicas de Alê d’Ilê citadas: (1) Voulez vous Dancer,  (2) Justina, (3) I’I Pororoca e (4) Estrada Companheira
Para ouvir: Myspace
Para Comprar o CD: Visite o site da Livraria Cultura. Clique AQUI
 
Músicas de referência: A Violeira, Caro Amigo e Mambembe (Chico Buarque)/ Palco, Corações a Mil e Pela Internet (Gilberto Gil)
Imagens: fotografia de Carllos Bozelli e ilustracao de Nicolas Simon

E.T: Desde aqui, mando-te “lembranças”, querido Preto, como diria o preto meu avô. Posso também parafrasear (?) Carl Sagan e dizer que: diante da vastidão do tempo e da imensidão do espaço, é uma honra dividir um planeta e uma época com você.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Embondeiro Que Sonhava Pássaros

Sim, faz muito tempo que não publico nada. E esta não é necessariamente uma "volta". Seja como for, gostaria de compartilhar um conto de Mia Couto.

O texto abaixo era um rascunho dezembro de 2011, quando pacientemente digitei os trechos deste conto para vocês. Mas naquele dezembro, algo estava travando meu computador que, por fim, veio a "morrer". Assim, não voltei mais a isso. Até agora.


O Embondeiro Que Sonhava Pássaros

[Mia Couto, Cada Homem é uma Raça]

 Pássaros, todos os que no chão desconhecem morada.

Esse homem sempre vai ficar de sombra: nenhuma memória será bastante para lhe salvar do escuro. Em verdade, seu astro não era o Sol. Nem seu país não era a vida. Talvez, por razão disso, ele habitasse com cautela de um estranho. O vendedor de pássaros não tinha sequer o abrigo de um nome. Chamavam-lhe o passarinheiro.



Todas manhãs ele passava nos bairros dos brancos carregando suas enormes gaiolas. (...) _Mãe, olha o homem dos passarinheiros! 

E os meninos inundavam as ruas. As alegrias se intercambiavam: a gritaria das aves e o chilreio das crianças. O homem puxava de uma muska (1) e harmonicava sonâmbulas melodias. O mundo inteiro se fabulava. 

Por trás das cortinas, os colonos reprovavam aqueles abusos. Ensinavam suspeitas aos seus pequenos filhos - aquele preto quem era? Alguém conhecia recomendações dele? Quem autorizara aqueles pés descalços a sujarem o bairro? Não, não e não. O negro que voltasse ao seu devido lugar. Contudo, os pássaros tão encantantes que são - insistiam os meninos. Os pais se agravavam: estava dito. 

Mas aquela ordem pouco seria desempenhada. Mais que todos, um menino desobedecia, dedicando-se ao misterioso passarinheiro. Era Tiago, criança sonhadeíra, sem outra habilidade senão perseguir fantasias. Despertava cedo, colava-se aos vidros, aguardando a chegada do vendedor. O homem despontava e Tiago descia a escada, trinta degraus em cinco saltos. Descalço, atravessava o bairro, desaparecendo junto com a mancha da passarada. O sol findava e o menino sem regressar. Em casa de Tiago se poliam as lástimas: 
_Descalço, como eles. 

O pai ambicionava o castigo. Só a brandura materna aliviava a chegada do miúdo, em plena noite. O pai reclamava nem que fosse esboço de explicação: 
_Foste a casa dele? Mas esse vagabundo tem casa? 

A residência dele era um embondeiro, o vago buraco do tronco. Tiago contava: aquela era uma árvore muito sagrada, Deus a plantara de cabeça para baixo. 
_Vejam só o que o preto anda a meter na cabeça desta criança. 

(...) 
Fosse por desdenho dos grandes ou por glória dos pequenos, a verdade é que, aos pouco-poucos, o passarinheiro foi virando assunto no bairro do cimento. Sua presença foi enchendo durações, insuspeitos vazios. Conforme dele se comprava, as casas mais se repletavam de doces cantos. Aquela música se estranhava nos moradores, mostrando que aquele bairro não pertencia àquela terra. Afinal, os pássaros desautenticavam os residentes, estrangeirando-lhes? Ou culpado seria aquele negro, sacana, que se arrogava a existir, ignorante dos seus deveres de raça? O comerciante devia saber que seus passos descalços não cabiam naquelas ruas. Os brancos se inquietavam com aquela desobediência, acusando o tempo. Sentiam ciúmes do passado, a arrumação das criaturas pela sua aparência. O vendedor, assim sobremisso, adiantava o mundo de outras compreensões. Até os meninos, por graça de sua sedução, se esqueciam do comportamento. Eles se tornavam mais filhos da rua que da casa. O passarinheiro se adentrara mesmo nos devaneios deles: 
_Faz conta eu sou vosso tio. 

As crianças emigravam de sua condição, desdobrando-se em outras felizes existências. E todos se familiavam, parentes aparentes. 
_Tio? Já se viu chamar de tio a um preto? 

Os pais lhes queriam fechar o sonho, sua pequena e infinita alma. Surgiu o mando: a rua vos está proibida, vocês não saem mais. Correram-se as cortinas, as casas fecharam suas pálpebras. 

Parecia a ordem já governava. Foi quando surgiram as ocorrências. Portas e janelas se abriam sozinhas, móveis apareciam revirados, gavetas trocadas. 

Em casa dos Silvas: 
_Quem abriu este armário? 
(...)
Em casa dos Peixotos: 
_Quem espalhou alpista na gaveta dos documentos?
(...)
No lar do presidente do município: 
_Quem abriu a porta dos pássaros? 
(...) 

No somado das ocorrências, um geral alvoroço se instalou no bairro. Os colonos se reuniram para labutar em decisão. Se juntaram em casa do pai de Tiago. O menino iludiu a cama, ficou na porta escutando as graves ameaças. Nem esperou escutar a sentença. Lançou-se pelo mato, rumo ao embondeiro. O velho lá estava ajeitando-se no calor de uma fogueira. 
_Eles vem aí, vêm-te buscar. 

Tiago ofegava. O vendedor não se desordenou: que já sabia, estava à espera. O menino se esforçava, nunca aquele homem lhe tivera tanto valor. 
_Foge, ainda dá tempo. 
Mas o vendedor se confortava, em sonolentidão. Sereno, entrou no tronco e ali se ademorou. Quando saiu já vinha gravatado, de fato mesungueiro(2).  (...) 
_E porquê vestiste o fato? 
Explicou: ele é que era natural, rebento daquela terra.Devia de saber receber os visitantes. Lhe competia o respeito, deveres de anfitrião. 
_Agora, você vai, volta na sua casa. 
(...)

Barulhosos, os colonos foram chegando. Cercaram o lugar. O miúdo fugiu, escondeu-se, ficou à espreita. Ele viu o passarinheiro levantar-se, saudando os visitantes. Logo procederam pancadas, chambocos, pontapés. O velho parecia nem sofrer, vegetável, não fora o sangue. Amarram-lhe os pulsos, empurraram-lhe no caminho escuro. (...) O menino, de pronto, se decidiu. Lançou-se nos matos, no encalço da comitiva. 

(...) A voz do passarinheiro lhe chegava, vinda de além-grades. Agora, podia ver o rosto de seu amigo, o quanto sangue lhe cobria. Interroguem o gajo, espremam-no bem. Era ordem dos colonos, antes de se retirarem. O guarda continenciou-se, obediente. Mas nem ele sabia que segredos devia arrancar do velho. Que raivas se comprovavam contra o vendedor ambulante? Agora, sozinho, o retrato do detido lhe parecia isento de suspeita. 
_Peço licença de tocar. É uma música da sua terra, patrão. 
O passarinheiro ajeitou a harmónica, tentou soprar. Mas recuou da intenção com um esgar. 
_Me bateram muito-muito na boca. É muita pena, senão havia de tocar. 

O polícia lhe desconfiou. A gaita-de-beiços foi lançada pela janela, caindo junto do esconderijo de Tiago. Ele apanhou o instrumento, juntou seus bocados. Aqueles pedaços lhe semelhavam sua alma, carecida de mão que lhe fizesse inteira. O menino se enroscou, aquecido em sua própria redondura. Enquanto embarcava no sono levou a muska à boca e tocou como se fizesse o seu embalo. Dentro, quem sabe, o passarinheiro escutasse aquele conforto? 

Acordou num chilreino. Os pássaros! (...) As portas estavam abertas, a prisão deserta. O vendedor não deixara nem rasto, o lugar restava amnésico. Gritou pelo velho, responderam os pássaros. 

Decidiu voltar à árvore. Outro paradeiro para ele já não existia. Nem rua nem casa: só o ventre do embondeiro. (...) Entrou no tronco, guardou-se na distância de um tempo. Valia a pena esperar pelo velho? No certo, ele se esfumara, fugido dos brancos. No enquanto, ele voltou a soprar na muska. Foi-se embalando no ritmo, deixando de escutar o mundo lá fora. Se guardasse a devida atenção, ele teria notado a chegada das muitas vozes. 
_O sacana do preto está dentro da árvore. 
Os passos da vingança cercavam o embondeiro, pisando as flores. 
_É o gajo mais a gaita. Toca, cabrão, que já danças! 

As tochas se chegaram ao tronco, o fogo namorou as velhas cascas. Dentro, o menino desatara um sonho: seus cabelos se figuravam pequenitas folhas, pernas e braços se madeiravam. Os dedos, lenhosos, minhocavam a terra. (...) Foi quando Tiago sentiu a ferida das labaredas, a sedução da cinza. Então, o menino, aprendiz da seiva, se emigrou inteiro para suas recentes raízes.

(1) Muska - nome que, em chissena, se dá à gaita-de-beiços.
(2) Mesungueiro - de “mesungo”, homem branco
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Imagem: fotografia tirada em Pemba, província de Cabo Delgado, Moçambique. Notem as proporções da árvore em relação a pessoa sentada a sua sombra, a extrema direita.