quinta-feira, 21 de abril de 2011

Resignificando trufas e afazeres

Hoje estou fechando um ciclo.
Conto que há dez anos atrás, quando eu era aprimoranda de psicologia clínica em psiquiatria, fazia trufas para ajudar no sustento do dia-a-dia.


Período difícil aquele. Quando se findou, também findaram-se esses fazeres . Lembro, inclusive, de minha terapeuta da época fazendo paralelos com o filme Chocolate: essas coisas de descobrir desejos escondidos, propiciar prazeres, etc. Nem a poesia interpretativa sustentou a continuidade da atividade.

Oito anos já se passaram desde o cessar deste labor paralelo. Após chantagens emocionais e/ou pedidos carinhosos, em 2010 prometi prxs amadxs que esse ano (re)conheceriam minha trufas. Isso que era quase lenda contada por familiares e amigxs de longa data. Isso que me lembra um período que o R$1,00 era bastante. E poupado, administrado, ganho por cada bocado de prazer vendido às pessoas
chocofílicas.


Parecia longe a tal “Páscoa 2011”. O tempo chegou.
Domingo: rememorar receita. Segunda: comprar ingredientes. Terça: picar e fazer a mistura. Quarta: enrolar, moldar, descobir. Hoje, quinta: banhar-maria e ver cascas frágeis surgindo para envolver a essência. Tudo pronto. Tudo à mesa. Secando e preenchendo a casa com o odor característico.


Também posso contar a outra maneira.


Domingo: rever receita com uma querida. Ouvir a voz da (não minha) professora de educação artística e fazedeira de trufas, doces de figo e cuidados (para mim) sem fim.

Segunda: andar pela cidade, descobrindo lugares para comprar coisas antes compradas em cidades distantes. Alarmar-me com os setenta por cento da alta dos preços em oito anos. Confortar-me que isso já não me importa.


Terça: dolorir a mão com a faca que corta o tijolo marrom. Recordar a força do braço e da canseira da mistura. Querer a amiga que vendia roupas em busca dos reais que também lhe faltavam. Sabe-la me ensinando a apreciar a tal trufa com café.


Quarta: dar pequenas porções às amadas que dividem a vida-casa comigo. Ensinar o jeito de moldar as porções. Criar expectativas do gosto completo por vir. Chorar porque a mãe ligou e delicadamente colocou uma música de quando eu pequenina.



Quinta: mais marias ao banho, e último, por fim. Pós sequinhas, ensacar em trabalho a quatro mãos. Conjugar o acompanhar sincero.

E foi assim que tudo se (re)fez. Trabalho não para lucros em Reai$, apenas para presentes reais.


Agora, enquanto escrevo, conto que ainda não tive coragem de provar o resultado concreto desse tal resignificar. Farei isso logo depois que postar.




Fonte das imagens: a cozinha aqui de casa.

7 comentários:

FlaM disse...

lindo! deliciosamente lindo!

Alexsa Souza disse...

Ahhhhhhhhh!!! Eu q sei.... me deliciei muuuuiiittoooooo com essas maravilhas..... Ali a mão....dentro da geladeira.... Delícia!!! ... Com essas maravilhas curei TPM, dores de cutuvelo, loucos desejos, ect... rsrsrs Saudades meu Amorzinho!!!

D@lv@ Ch@ves disse...

Resignificar, minha palavra da vez! Tá lindo o post... parabéns pela Páscoa resignificada. Bjo.

Pata disse...

Bom, lembrar das trufas necessariamente me faz lembrar de outras coisas... do refeitório (escroto, diga-se de passagem)do HC e suas MARAVILHOSAS refeições que, graças a você, podiam ser seguidas de um adoçamento de expectativas... assim como do nosso passeio no carro da roupa suja, das nossas pequenas "disputas" de poder psiquiatra x psicóloga, mas fundamentalmente de ter uma amiga sempre por perto pra poder desabafar e comer um chocolatinho... te amo, gatinha, e sinto muita saudade de tudo, de você, do Fernando, e da Famema, ainda que você não prefira Marília a Assis...

Estela disse...

Quase não pude terminar de ler, pois me emocionei quando vc disse"tempos difíceis aqueles..." e vc talvez não saiba da exatidão das dificuldades daquela época. Oito anos sem aumento de salário e fazendo de tudo para dar a vc e seus irmãos uma boa educação.Mais difícil ainda saber que vc entrava madrugada para fazê-las. Um misto de tristeza e orgulho: tristeza por não poder lhe proporcionar tudo que eu sonhava, uma vida sem esse tipo de sacrifício: orgulho por vc perceber as nossas dificuldades e se dispor a colaborar.Essa é a Minha Filha.

Janaína Leslão disse...

Queridas, obrigada pelo carinho imenso! Queria ter doces o suficiente (e que eles tivessem asinhas) para chegar até cada uma de vocês.

Mamis, penso que você pode me dar tudo o que sonhava: provavelmente sonhou com alguém como vocês, que ao invés de reclamar, faz alguma coisa. Vocês fizeram um ótimo trabalho :) OBRIGADA.
AMO VOCÊS!

Fabiana disse...

Jana... só agora vi esse doce recadinho..., rsrsrs, mas como você conhece essa minha rapidez, vou agradecer mesmo que atrasadinha, rsrs. Essas suas mãos sempre oferecendo doçura, e olha que naquela época precisávamos mesmo de muito carinho e docinho pra alegrar a vida... Devia ter aproveitado mais as trufas, rsrs. Ahhhh!!! Me deu uma vontade de comer o bolo com recheio de trufa.
Saudades...
Uma beijoca estralada, sabor chocolate e um abraço bem apertado.