domingo, 1 de maio de 2011

Homofobia e Solidariedade

Dia 28 de abril, recebi uma nota que dizia "Subsede Vale do Paraíba e Litoral Norte reitera seu posicionamento contra a homofobia". No texto dizia que um dos colaboradores do Conselho Regional de Psicologia- SP foi vítima de homofobia, e que a citada Subsede se unia ao coro dos banhistas de Ubatuba a favor da diversidade e “liberdade de ser” de tod@s.

Chateada com o ocorrido, mas satisfeita com a nota, procurei o colega Vinícius para saber um pouco mais. Queria saber se ele estava bem e se tinha publicado em algum lugar o ocorrido. Se, por assim dizer, tinha colocado a boca no trombone virtual.

Como ele não tem esse costume, coloquei esse espaço à disposição e ele topou a idéia. Simplesmente não nos conformamos que pessoas sejam constrangidas e violentadas apenas por frequentar a praia, aproveitar o feriado de Páscoa, exercer o seu direito de ir e vir...

Felizmente ele acredita que "a humanidade ainda tem jeito". Lendo seu relato, também tendo a acreditar.
A Vinícius, minha solidariedade.
A vocês, os acontecimentos:

DESABAFO (Vinícius Samuel)

Neste ultimo sábado, dia 22 de abril – véspera de páscoa – fui para Ubatuba com meus amigos, mais precisamente para a praia da Itamambuca. Esta viajem, ao meu ver, foi no mínimo inusitada, para não dizer enriquecedora.

Ao chegarmos na praia, estendemos quatro cangas no chão, acomodamos nossos pertences e quando estávamos acomodados fui olhar uma barraquinha de praia que tinhas algumas coisas as quais me atraíram.

Ao retornar para o local onde estávamos acomodados, vi meu amigo Amauri se levantando da areia e um senhor berrando com os meus amigos. Sem entender, cheguei impondo limites e perguntando o que estava acontecendo ali. O senhor que ali estava – alterado – me respondeu aos berros que meus amigos estavam passando protetor solar, e que isso era coisa de “boiola”, “Bicha”.

Para evitar maiores absurdos, pedi para o senhor para que se acalmasse, disse que não precisaria se exaltar, quando então ele pegou um remo que estava próximo e ameaçou agredir a todos. Absurdado com o que estava presenciando disse a ele que estava chamando a polícia, e que não teria motivo algum para cometer tal barbárie.

Então, após ter ligado para a policia, fiquei no local esperando o policial chegar. Neste meio tempo o senhor exaltado ofendia a nós todos, dizia absurdos e nos jogava latas amassadas de cerveja. Em um certo momento tive receio de ficar esperando ali, ele veio e chutou nossa garrafa de água mineral!

Com uma hora de espera o Apoio da Praia – que faz a segurança do residencial Itamambuca – chegou, me apresentei ao Apoio e disse o que estava acontecendo. O Apoio chamou o senhor de canto, conversou com ele, disse que todos ali tinham o mesmo direto, e que ninguém iria agredir ninguém, porém, eles não poderiam ficar ali para resguardar a segurança de ninguém, teriam de partir para continuar a ronda na praia. Nem bem ficaram quinze minutos, e já partiram.

Ao se ver novamente sem uma censura de seu comportamento agressivo, o senhor exaltado retornou ao seu comportamento ofensivo, que nestas alturas já incomodava não apenas a nós, mas quem ali estava com seus familiares e amigos.

Cansados com que estava acontecendo, e já desesperançosos com a vinda de alguma polícia, após UMA HORA E MEIA de espera por uma polícia que não chegava, resolvemos sair de onde estávamos para não acabarmos sendo agredidos pelo senhor exaltado. Tão logo retiramos a primeira canga do chão, eis que como num passe de mágica uma intervenção quase que divina vem ao nosso socorro, a população da praia, já cansada de todo stress gerado pelo papelão que o senhor causara se manifestou nos dizendo que dali nós não sairíamos. Neste momento senti em meu coração um alivio imenso, como se uma grande pressão que atormentava sumisse. Me senti aceito do jeito que sou por pessoas que nem conhecia, não sabia quem eram.

Nesta massa estavam famílias inteiras, pessoas que se uniram frente a uma injustiça que estava sendo acometida naquele momento e naquele lugar. Pessoas que eu mesmo jamais imaginaria que tomariam a posição que tomaram, até mesmo os surfistas se aglomeraram a massa que se formou para conter o senhor exaltado que queria nos agredir, e há horas nos ofendia com palavras de baixo calão. Neste momento confesso, o sentimento de acolhimento foi intenso, alguns amigos chegaram a chorar de emoção, e eu fui tomado por um sentimento bom.

Como me disse um amigo neste dia: “Em fim acredito que a humanidade tem jeito.”

São as pequenas atitudes que fazem as grandes diferenças.

Com mais de duas horas de atraso a polícia chegou, neste momento já bem mais aliviado relatei ao policia o que havia acontecido ali, o mesmo rio e me disse que não teria nada a fazer então, já que o senhor já não estava mais lá.

Nunca na minha vida tinha passado por este tipo de constrangimento, principalmente pelo meu jeito de ser, muito menos por um pouco de protetor solar, mas hoje sei que estou no caminho certo e amo cada vez mais a minha profissão e meu papel enquanto psicólogo.

Meus amigos e eu somos homossexuais sim, e isso não dá a ninguém o direito de nos desrespeitar de forma alguma.

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Fonte da imagens: enviadas pelo próprio Vinícius

7 comentários:

Vinicius disse...

Obrigado Janaina.
Agradeço em meu nome e de meus amigos.

Luis tadeu disse...

Vinicius, fico muito feliz, pela sua atitude, seu respeito, e por acreditar que é possivel um mundo melhor. A janaina, esta mulher guerreira, que cada vez mais admiro, pela continencia, e abertura para enfrentar situações, que possam ajudar o ser humano, e a nossa humanidade.
um grande beijo a voces

Mr Marcinho disse...

Onde poderíamos ter vez e voz!? Salve! Salve! Janaína ... Vinicius sinto-me agredido também, de saber que ainda temos que ficar reféns em situações cotidianas onde a homofobia e à irracionalidade de agressores como esse preponderam! E o desfecho ...! Puxa Vinicius, só posso dizer que essa 'aí' é a minha praia! Beijo!

Alessandro Polo disse...

Para um ínicio de semana, esta foi a melhor coisa que já li. É bom saber que algumas atitudes estão sendo modificadas. Faltou uma camêra na mão para identificar esse agressor e mostrar para todos quem ele é... Porém espero que ele tenha aprendido a lição.

Jesus daSilva disse...

Realmente deu gosto ler o relato!

Estou com lágrimas nos olhos...

será que sou "boiola"?!?1? rs

paz!

Fernanda disse...

é uma porrada e um afago! pelo menos isso, né? alguma solidariedade! estamos anos luz distantes da igualdade e de respeito.

Wiliamp disse...

Ando meio negativista nos ultimos meses diante de tanta desgraça lesbo/homo/transfobica que a midia tem nos oferecido e neste dia 05 de maio (mes das noivas)temos nossos amores respeitados e reconhecidos como legítimos. Agora, leio esse relato (Jana vc é danada) e caio em prantos, mas de lagrimas de alegria, de alívio, de sentimentos que atraves da experiencia tao intensa dessas pessoas podemos voltar a acreditar que um mundo melhor é possível!! Viva a vida!!! Viva o amor!!! Viva todas e todos nós!!!